Saturday, November 28, 2009

500 Days of Summer & Morrissey




O textinho que escrevi saiu na Revista Movie n. 02, de novembro. Embaixo a versão original, sem cortes:

Agosto passado, John Hughes faleceu. Nascido em Nova York, o diretor de “Gatinhas e Gatões” e “Clube dos Cinco”, roteirista de “A Garota de Rosa Shocking”, é parte da cultura popular de uma geração. Que quarentão ou balzaquiana não se lembra de “Curtindo a Vida Adoidado”? Segurando um microfone, o personagem Ferris Bueller, cercado por uma multidão dançante na avenida, dublou a voz de John Lennon em “Twist and Shout” e protagonizou uma das cenas mais inesquecíveis (e bacanas) dos filmes nos anos 80. Ferris se firmou como o grande momento da carreira de seu intérprete, o hoje senhor Sarah Jessica Parker (também conhecido por Matthew Broderick). E Hughes foi mestre. Foi feliz ao escrever, produzir ou dirigir comédias leves marcadas por um toque genial: a mão de John Hughes era hábil o suficiente para, com delicadeza e encanto, misturar em seus enredos as alegrias e aflições da adolescência com o apelo irresistível da música pop.
Mas John Hughes morreu mesmo? Há controvérsias. Meses depois de sua morte, chega aos cinemas a comédia americana “500 Days of Summer”, dirigida pelo jovem Marc Webb, roteirizada por Scott Neustadter e Michael H. Weber.
É fácil encontrar John Hughes dentro do filme. Quando Tom (Joseph Gordon-Levitt) desafina “Here Comes Your Man”, da banda Pixies, em um karaokê, você sabe que o cinema desse século já tem seu novo Ferris. Tom paga tamanho mico porque está apaixonado pela colega de escritório, Summer (a fofa Zooey Deschanel, vocalista da dupla She & Him). E o sentimento de Tom nasce por culpa do cupido mais melancólico e fracassado que um apaixonado sem esperanças poderia desejar: a música pop. É no elevador da firma que Summer escuta “There’s a Light That Never Goes Out”, canção dos Smiths escapando pelos fones nos ouvidos de Tom. Summer comenta que ama a banda. E Tom percebe que está perdido. Mas o que esperar de uma relação abençoada pela tristeza e pessimismo de Morrissey? O narrador do filme já avisa logo no início: “Essa é a história - garoto encontra garota. O garoto se apaixona. A garota, não.”
“500 Days of Summer” são os quinhentos dias – mostrados em ordem não cronológica - ao longo dos quais Summer esteve presente na vida do recém-formado Tom, que sonha ser arquiteto mas trabalha escrevendo frases para cartões comemorativos. O amor platônico, a conquista desajeitada. O primeiro beijo e a primeira transa – motivo para Tom sair dançando na rua, contangiando outros pedestres em uma coreografia hilária (outra vez, John Hughes dá as caras). Os momentos felizes da relação (que Summer não assume como namoro). E o pé-na-bunda. Que tem tudo para se consagrar como o pé-na-bunda mais cruel - e pop – da história do cinema: Summer diz que não está feliz, que as brigas do casal são constantes. Compara o relacionamento dos dois à relação destrutiva dos punks Sid Vicious e Nancy Spungen. Tom se ofende, argumentando que Sid havia esfaqueado Nancy – atitude que seria incapaz de tomar. Summer devolve: “EU sou Sid”.
Marc Webb foi capaz de contar uma história fictícia – e comum, sobre jovens fictícios – mas comuns, embalada por canções que foram e serão a trilha sonora de histórias reais – e comuns. Da sua, da minha. O diretor Marc Webb entendeu e assimilou a mágica de John Hughes. Morrissey estava mesmo certo: there’s a light that never goes out.

Friday, November 06, 2009

Revista Movie n. 02

A resenha de "500 Dias Com Ela" is mine. :)

Monday, November 02, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLV



Olga Boznanska, Self-Portait, e a cantora Marianne Faithfull

Tuesday, October 06, 2009

Mrs. Magoo

Acabei de mostrar para minha genitora a última página da Movie, revista de filmes e tecnologia que foi lançada este mês.

Minha mãe, mastigando um pedaço de pizza Sadia, depois de olhar a página por longos segundos: "Tá. E daí?"

E daí que eu estou lá, po! E na seção de DVDs. Tem textinho meu. :)

Wednesday, September 23, 2009

Berlim, Mark

O alemãozinho gente-fina me avisou que a barra estava limpa: "vai agora, não tem ninguém vendo!". Rezando para não ser vista, eu passei pela cortina preta, subi a escadinha caracol na velocidade de um raio. Após o último degrau, o início de um corredor estreito: uma fila de portas na parede esquerda e outra na parede direita. Lá na frente, direita, luz saía de uma sala aberta. Talvez fosse aquela. Corri, livro na mão. Brequei as botas no carpete quando cheguei na entrada. Tinha gente dentro. Em um canto, pessoas sentadas em semicírculo olharam para mim, expressão de dúvida: "quem é você?". No canto oposto, de pé e ao lado da pizza sobre a mesa, ele me viu. "Ah...é você.", disse. E Mark Lanegan sorriu.

Meu, tanto lugar bacana em Berlim e Soulsavers fechou de fazer show logo no FritzClub im Postbahnhof. Não que o clube seja ruim. Estilo galpão, jardinzinho pra tomar cerveja, bar com pista para DJ. Legal. Mas eu desconfiei que havia ido parar na PQP não só porque o Fritz fica quase sob a linha do trem, solitário em um trecho de avenida no qual no pasa nada. Há outra razão. Vizinho ao clube, a perder de vista sentido norte, sentido sul, o Muro. Metros e metros de concreto ainda intactos. Uma massa de cimento e tijolos, que um dia cortou uma cidade ao meio, colorida por grafites. Pouco se vê dos restos do Muro no Centro turístico e residencial de Berlim. Símbolo da vergonha, foi quase todo destruído. Mas nas imediações do FritzClub ele foi poupado. O local é tão deserto que, acho, na data da Queda não havia uma alma presente para dar umas boas marretadas naquele troço.

No corredorzinho, Mark Lanegan encostou na parede, flexionou uma das pernas e me encarou. Levantou a mãozona tatuada e, antes mesmo que eu perguntasse, foi abrindo os dedos à medida em que contava: "Londres....São Paulo....Lisboa....eu me lembro de você em todos esses lugares. E agora aqui. E você sempre me dá livros!". Bom, faltou Bruxelas (em Bruxelas ele não me viu. Só porque eu me manquei e o deixei em paz, hehe). Fiquei com vergonha, quase soltei um..."ah, mas hoje eu apenas passava por essa rua tão...tão...ehh...interessante, fazendo um emocionante city tour embaixo do viaduto sujo e mijado da linha do trem, quando vi três pessoas aí fora no portão, concluí que o galpão bombava e resolvi entrar. Estava procurando o banheiro quando - ah, que mundo pequeno - te vi aí entretido com essa mesa de comida gordurosa!". Ao invés da piadinha, minha voz mais cor-de-rosa, florida e dengosa: "Noooossa....você se lembra mesmo de mim, hein!!".

Comentei sobre o show de São Paulo, que foi tão divertido, gente berrando enlouquecida. "São Paulo! Eu ADOREI aquele lugar!". Lançou um olhar para meu braço esquerdo, sorriu. Uau. Senti sinceridade, ele não estava elogiando Sampa só por educação. Putz, isso que dá beber pouco; se eu não tivesse tomado apenas uma Heineken, teria saído isso: "Que coincidência, meu Deus, eu também ADORO São Paulo. Por acaso, moro lá! A pizza é maravilhosa! Moremos os dois lá, então! A cidade é cinza, perfeita para inspirar suas músicas depressivas! Visto de permanência? Tá bem, vai, eu não me importo de casar com você, tudo em prol da Música!".

E por que não morar em São Paulo? Nada impossível. Chrissie Hynde, do Pretenders, teve (ou tem) um apê no Centro da cidade. Nick Cave foi meu vizinho, morou na Pompéia e vivia nos botecos. Aliás, vi o Cave em Londres, assinando autógrafos em uma livraria. Bronzeado, testa duas vezes maior do que o resto do rosto. Jeitão simpático e atencioso. Eu quase entrei na fila de fãs, mas então teria que comprar o novo livro dele. Que conta a história de um coelho psicótico e tarado. Meu amor ao dinheiro bem gasto falou mais alto.

- "Mark...".
- "Humm..?"
- "Você tá fazendo um disco novo?"
Ele fez uma cara engraçada, tipo..."ai, se eu ganhasse um dólar cada vez que me perguntam isso..."
- "Estou. Entre uma viagem e outra das turnês eu ando compondo umas músicas..."
- "Oba! Isso é bom, porque você viaja bastante!"
- "Eu, é!? Pois é. E você também!!"
E eu nunca vi Mark Lanegan rindo tanto...

Ah, foi tão legal! No fim, Mark Lanegan ganhou mais um livro assinado por mim (que devo ser a única fã do mundo que deu mais autógrafos para o seu ídolo, ao invés de ter pedido - 4 dados contra 1 recebido no braço). E - que bonitinho! - ficou vermelho na hora da despedida. Igualzinho ao Mathias ficava, meu coleguinha no pré-primário, em 1981.

Monday, September 14, 2009

Jello Biafra em Londres




“Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”. Em sua obra principal, “A Divina Comédia”, o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321) alertou os infelizes prestes a atravessar os portões do Inferno: “Deixem toda esperança, vocês que entram”. Londres, noite de 8 de setembro. As portas vai-e-vem do 02 Islington Academy foram abertas para me dar passagem. Uma massa de ar quente grudou em mim. Porão lotado, almas suadas se acotovelando na disputa por uma visão mínima do palco. Um urro abismal quase arrebentou meus tímpanos: o vocalista da banda de abertura cantava. Não entendi uma só palavra gritada pelo moço exibindo corte de cabelo moicano e impressionantemente idêntico à cantora Cássia Eller. Lembrei então da advertência dantesca. O que fazer? Voltar? O porteiro olhou pra mim, esperando. Já que eu estava no inferno, melhor abraçar logo o capeta, vai. Tá aqui meu ingresso, moço.
Você é mulher no meio de uma platéia punk 98% masculina. Os 2% restantes são compostos por damas de aparência tão frágil quanto a de gladiadoras. Boa notícia: um banheiro sem filas, vazio e limpo do início ao fim do show, só pra você. Péssima notícia: comece a se preocupar com sua integridade física, porque, com muita sorte, você será apenas estuprada. O mezanino foi a salvação: lá em cima, isolados do gentio, somente punks de boutique que pelo menos pareciam saber ler e escrever. E que tinham tomado no mínimo um banho nas últimas duas semanas. Arranjei um lugar bom pra ver o show.
E o show era Jello Biafra com sua recente banda, The Guantanamo School of Medicine. Jello Biafra é Eric Reed Boucher, 51 anos, ex-vocalista da banda punk californiana Dead Kennedys, que esteve em atividade durante a década de 80. Então o clima era de saudosismo: olhando para a concentração de homens lá embaixo, o número de cabeças calvas e grisalhas se destacava entre a minoria de cabelo verde, espetado por claras de ovos e sabão.
Uma hora esperando, a banda entrou. Só tios. Jello veio depois, pulando, vestindo jaleco branco sobre a camiseta preta e calça jeans. Todo sujo de sangue falso, concentrado nas luvas cirúrgicas que cobriam as mãos. A velharada entrou em êxtase, formou-se a tradicional roda de pogo (a dança empurra-empurra punk, dessa vez na hilária versão geriátrica). Santo mezanino.
Entre uma música e outra, Jello discursava contra as atrocidades do governo Bush. No meio do show, tirou o avental e as luvas, mostrando a camiseta preta com mensagem: I support Iraq veterans against the war. Dançando, Jello parecia um mímico, contorcendo o rosto com caretas, gesticulando, simulando estar sendo torturado.
O set list do show? Sei lá! Fui ao show só para ver o Jello. O álbum de estreia do Guantanamo School vai ser lançado em outubro. Do Dead Kennedys, conheço apenas “California Über Alles”. Foi durante essa música que Jello voou sobre fãs. Foi bizarro: um tiozinho meio careca, dono de uma senhora pança, dando um mosh pra cima da roda de pogo formada por outros tios pelancudos e barrigudos. O roadie não sabia se ria ou se salvava o patrão das mãos enrugadas da galera. Fez as duas coisas.
Intervalo para o bis. No corredor lateral ao palco, uma mulher de cento e trinta anos de idade, vestindo minissaia e blusinha regata, estava desmaiada e tentava ser reanimada pelo staff. Ela bateu a cabeça enquanto balançava os dreadlocks compridos, que batiam na altura da cintura. Mas foi só Jello retornar ao palco para a Medusa punk ressuscitar e voltar a chacoalhar os minhocões. Temperatura explodindo os termômetros, Jello se livrou da camiseta, orgulhoso em revelar a gravidez de seis meses. Incansável, cantou mais três ou quatro músicas (que me pareceram todas iguais...).
Jello e a banda voltaram para o segundo bis, a platéia delirou. Mas eu já estava satisfeita. E faminta. Dei uma passadinha no meu banheiro particular, ainda perfumado de desinfetante e abastecido de papel. Desviei da fila que se estendia diante da porta do banheiro dos desafortunados do sexo oposto, pisei em vários pés até alcançar a porta de saída. E fui embora do inferno, catando as esperanças deixadas na chapelaria. Foi divertido. A banda é competente, acho que o disco novo vai ser aprovado pelos fãs do Dead Kennedys. E Jello é figuraça. Cinquentão plugado na tomada, punk sempre inconformado, esperançoso para que sua música seja entendida como uma denúncia sarcástica contra a hipocrisia da sociedade e política americanas. Bacana. Tiozinho, mas ainda querendo mudar o mundo. Naquela noite, voltei ao mundo dos vivos sorrindo. Contente por ter descoberto que sim, de boas intenções, o inferno está cheio.

Sunday, August 30, 2009

Nick & Norah's Infinite Playlist




O seu sangue dispara nas veias com a notícia-surpresa: a Banda de Rock da Sua Vida vai tocar ao vivo. Esta noite. Onde, você não sabe. O show é secreto. Você tem poucas horas para vasculhar clubinhos, casas noturnas, inferninhos da cidade e estar no lugar certo, na hora certa. Seu carro não ajuda, é uma lata-velha. Uma bêbada desconhecida ronca desmaiada no banco traseiro. Flagrar sua ex, linda, beijando um playboy babaca: mais uma razão para você procurar desesperadamente o show da Banda de Rock da Sua Vida. E você tem companhia na caçada à Banda de Rock da Sua Vida: uma garota que ama música. Como você. Melhor: uma garota que ama as músicas Que Você Ama. Uma garota legal que recolheu do lixo os presentes que sua ex-namorada jogou na sujeira. Os discos em que você gravou as Músicas da Sua Vida. E entregou para aquela vadia, junto com seu coração. Mas não são os olhos da garota legal que você está louco para ver brilhando, quando a Banda de Rock da Sua Vida subir no palco...

Baseado no livro de Rachel Cohn e David Levithan, “Nick and Norah’s Infinite Playlist” (“Nick e Norah, Uma Noite de Amor e Música”, lançado no Brasil em DVD e Blu-ray) é o filme de uma noite em Nova York. Uma noite na Nova York do pós pós-punk, agora povoada e comandada pelos filhos dos fãs de Ramones, Velvet Underground, Blondie e Television. Contando a história do baixista Nick (Michael Cera, o pai adolescente de “Juno”) e de Norah (Kat Dennings), herdeira riquinha de um produtor musical, o jovem diretor Peter Sollet apresenta a nova trilha sonora que embala a madrugada da metrópole elétrica dos táxis amarelos. Ao som de Vampire Weekend, The National, Raveonettes, We Are Scientists, Shout Out Louds, Nick e Norah vagam pelos bastidores da cena roqueira mais invejada do planeta. Em busca não apenas do show de música ideal, mas daquela sensação sublime de pertencer a alguém que vai apertar forte sua mão, tão logo as caixas de som te surpreendam com os primeiros acordes da melhor canção da Banda de Rock da Sua Vida.

Friday, August 21, 2009

The Pretender





O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente ("Autopsicografia", Fernando Pessoa).

Foram duas as obsessões de Viktor Shklovsky. A Rússia. E Elsa Triolet. Em 1922 a vida em Berlim não era uma opção para o escritor. Cumpria uma imposição. Os liberais contrários à truculência bolchevique foram forçados a deixar o país. Os revolucionários derrubaram a monarquia e sentenciaram o czar à morte, mas negavam ao povo russo o direito a uma Constituição. Shklovsky e outros compatriotas refugiados viviam falsa liberdade na Alemanha. Para Viktor, a tristeza dos poetas e artistas exilados se comparava à melancolia do zoológico de Berlim: animais presos, impedidos de voltar para casa. O escritor era um homem acostumado ao provincialismo de sua pátria, um admirador da simplicidade campestre que um contemporâneo russo - o pintor Marc Chagall - reproduzia em suas telas. Shklovsky sentia-se repudiado pela burguesa e sofisticada Europa. A elegância e frieza européias eram a exata personificação de Elsa. E Elsa era a rejeição.

Elsa Kagan se casou com o francês André Triolet depois da revolução. Moraram no Tahiti até a relação se deteriorar. Triolet retornou para Paris. Berlim foi o destino da linda Elsa, escritora como Viktor.
Em Berlim, Viktor Shklovsky amou a Rússia e Elsa Triolet. Mas sua musa se mostrou tão inacessível quanto sua pátria. Ao escritor não era permitido estar em seu lar, da mesma forma que não era autorizado a demonstrar o seu amor. Viktor e Elsa se comunicavam por cartas. Ela vetou suas visitas, negou telefonemas. Ele escreveu uma carta. “I seem to be sinking, but even there, underwater, where the phone doesn’t ring and rumors don’t reach, where it’s impossible to meet you – I’ll go on loving you. (…) in Russia, I was strong, here I have begun to weep”. A resposta dela foi uma ordem. “Don’t write to me about love. I do not love you and I will not love you. Be light-hearted or else you’ll fail at love”.

“Zoo – or Letters Not About Love” é o livro no qual Shklovsky reuniu suas cartas enviadas para Elsa. E as poucas que recebeu dela. Na obra, o nome de Elsa é modificado. Em cada carta de Viktor, um esforço para burlar a proibição de Alya (Elsa)....e escrever sobre seu amor. Metáforas foram escolhidas como disfarces para declarações apaixonadas e desabafos frustrados do poeta fingidor. Descrições sobre chuvas e enchentes na cidade ocultam o desejo de confessar seu choro convulsivo. A sua desesperança é implicitamente comparada a um carro quebrado. A menção de uma ilha distante insinua o amor inatingível.

Na Alemanha da década de 20, Viktor Shklovsky não teve permissão para falar de amor. Solitário em Berlim, o russo talvez necessitasse de consolo. E conselhos também. De uma voz que pudesse pronunciar palavras semelhantes às quais havia sido obrigado a calar. Que traduzisse em poesia (e melodia) o desespero de um sentimento abafado. E que delicadamente o lembrasse de que o desamor pode ser digno de uma compaixão menos trágica - e mais patética. Viktor precisava das letras e canções Matt Berninger.
Matt Berninger é o frontman do The National, banda novaiorquina que se formou em 1999. Guitarras, piano, violino e os vocais barítono de Berninger se unem em músicas cuidadosamente criadas para serem ouvidas com o coração. Berninger é mestre em converter desilusão, saudade, melodrama e obsessão em letras breves e marcantes, homenagens para quem ama em silêncio. Matt escreve canções para aqueles que convivem com fantasmas na memória, que encenam diálogos imaginários com quem passou, marcou, foi embora – e nunca vai responder. Versos de “Fashion Coat” por coincidência revelam a angústia do expatritado Shklovsky: “I die fast in this city/outside I die slow/I’m not stupid I swear/I read the foreign news to understand my nation (…) everywhere I am is just another thing without you in it”. Quando, em uma carta, Viktor inventou um conto de fadas para driblar a proibição de Elsa (“A hermit once fell in love with a mouse – a strange love, but in Berlin, loneliness will make a person do anything – and he turned her into a girl”), anos e anos depois, na linda “Patterns of Fairytales”, Matt escancarou: “I’m turning on the stereo/And I’m turning into fairytales/Yes, I’m turning on the stereo/And I’m turning into you”. E na vigésima terceira carta, o escritor não aguentou mais: “I am tired of writing not about love. Set my words free, so that they can come to you like dogs to their master and curl up at your feet”. Se de alguma forma Shklovsky pudesse ouvir a advertência de Berninger em “Val Jester” (“Take your time when you tell her how she lives in your blood”), quem sabe seria poupado da explosão impaciente e impiedosa de Elsa Triolet: “You are violating our pact. You are writing me two letters a day. A lot of letters have accumulated. I have filled the drawer of my writing desk, my pockets and my purse are overflowing. On various pretexts, you keep writing about the same thing. Quit writing about HOW, HOW, HOW much you love me, because at the third ‘how much’, I start thinking about something else”. Um salto no tempo e Matt complementaria os temores de Viktor: “You clean yourself to meet the man who isn’t me/You’re putting on a shirt/A shirt I’ll never see/The letter’s in your coat but no one’s in your head/Cause you’re too smart to remember/You’re too smart/Lucky you” (“Lucky You”).

Em 1923, Viktor Shklovsky escreveu uma última carta em Berlim. Que não foi endereçada para Alya, e sim para o comitê central executivo russo. “Bitter is the anguish of being in Berlin, as bitter as carbide dust. Don’t be surprised that this letter follows some letters written to a woman. I’m not getting a love affair involved in this matter. The woman I was writing never existed. Perhaps there was another, a good comrade and friend, with whom I was unable to come to terms. Alya is a realization of a metaphor. I invented a woman and love in order to make a book about misunderstanding, about alien people, about an alien land. I want to go back to Russia”.

Viktor Shklovsky aprendeu e acostumou-se a fingir. Fingindo, teve seu amor recompensado. Elsa Triolet casou-se de novo. Mas Viktor Shklovsky morreu em Moscou, em 1984. Sessenta e um anos após ser novamente acolhido pela Rússia.

Sunday, July 26, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLIV




Ahahhaha!
Isso não é idéia minha! Tirado da comunidade do Facebook, "The Easter Island statues are actually sculptures of Mark Lanegan".
O melhor é o comentário de um cara:
"There are like, 200 statues.I think Mark Lanegan is their god".
Bom, que ele é um deus, isso eu já sabia! :)

Friday, July 17, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLIII



"Portrait of a Young Man" (1955), de LS Lowry, e Craig Nicholls, vocalista do The Vines.
(Não gosto de Vines. Mas Lowry é um dos meus preferidos. Então foi por ele.)

Thursday, July 02, 2009

I Got You On My Skin

Ele abriu um sorrisão quando eu estiquei o braço, manga arregaçada.

Assinou rindo. E a caneta só parou quando bateu na pulseira do relógio.

Mark Lanegannnnnnn.

Na pele.

Friday, June 26, 2009

A Visita do Rei e o Retorno da Rainha






A pessoa vai lá no campo de busca do Google, digita um nome. São listados os sites nos quais o nome aparece.

É assim que rola a grande maioria das passagens neste bloguinho: gente pesquisando sobre a vida de alguém descobre que esse alguém foi citado aqui. Então entra.

Só que às vezes acontece algo muito divertido: o nome pesquisado é o próprio nome do pesquisador! Ou um nome relacionado a ele.

Foi assim que o Eliardo França me achou. E se achou aqui. O Eliardo é o autor do livro infantil mais poético e tocante que já li: "O Rei de Quase Tudo". Escreveu um comentário simpático e ainda agradeceu a dica do Depeche Mode! Fiquei muito feliz!

Meses atrás, o fofo Guy Burwell já havia me avisado de que o Drugstore, banda da brasileira Isabel Monteiro, cogitava um show em Londres depois de anos e anos. A notícia foi dada na página da banda no Facebook.

Agora a informação foi confirmada. Pela própria Isabel. E aqui! Eu escrevi sobre a Isabel em setembro de 2006. Ela leu meu textinho e deu as boas novas:

"Miss Monteiro here saying hello! Achei o seu blog ao acaso, quando googled drugstore. Drugstore are still alive - we needed a looooooooong break. I'm working on material for another album and we're playing London in sept. Comovida com comentarios bonitos. saudades. isabel monteiro - london june 2009".

Comovida estou eu, pois adoro ela! Quem vai comigo para Londres em setembro?

Bom, e já que é assim, só para garantir:

Mark Lanegan, as you know, I love you!!

Tuesday, June 23, 2009

Site da MTV

O textinho sobre Caravaggio e punk foi publicado no blog Bis, no site da MTV!!

Fiquei muito feliz!!

(Ah, e nesse aqui eu cacei talentos, hehe!)

Sunday, May 31, 2009

Twitter

http://twitter.com/analuisatb

Aderi.
Twitter, blog de preguiçoso.

Friday, May 22, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLI






Francisco Goya, Self-Portrait, e Gene Simmons, vocalista e baixista do Kiss.

Tuesday, May 05, 2009

Quem avisa...

....amiga é!

Seguinte: às sete e meia da noite de hoje, terça-feira, começaram as vendas dos ingressos para o show do Mark Lanegan e Greg Dulli no dia 01 de julho, no Bourbon Street. Minutos depois, liguei lá no BB e comprei o meu. A senhora que me atendeu - muito simpática - disse que naquela meia hora só ela já havia atendido umas cinco pessoas. O lugar é pequeno. A pista custa oitenta reais, lugar em mesa custa cento e vinte e cinco.

As vendas recomeçam amanhã, quarta-feira, às nove da manhã. Por telefone ou no escritório do Bourbon.

Para quem se interessar, é bom correr. Tá aqui o email que recebi:

Olá!Informamos que as reservas para o show "Uma noite com Greg Dulli e Mark Lanegan", que acontecerá no dia 01/07, já podem ser feitas.As reservas serão mediante antecipação do couvert artístico.Podem ser feitas pessoalmente no Bourbon Street, ou por telefone através de nosso Call Center.O horário de atendimento do Call Center é de 2ª a 6ª feira das 09h00 às 20h00 e Sábado e Domingo das 12h00 às 18h00.O valor do couvert artístico será de R$80,00 por pessoa em pé na pista, ou R$125,00 por pessoa em mesa.Para mais informações e reservas, entre em contato conosco pelo telefone 11-5095-6100.Obrigado,Call Center

***BOURBON STREET MUSIC CLUB***Rua dos Chanés, 127 - São PauloTel: 5095-6100 - Fax: 5095-6110Site: www.bourbonstreet.com.br

Thursday, April 30, 2009

She's Alright

"We Have Met Before", Dulli & Lanegan:

http://www.youtube.com/watch?v=FPKIXztIp7M

Para Vovó.

Thursday, April 23, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXL



"Neptuno" (detalhe), de Bartolomeo Ammannati, e Tim Wheeler, vocalista e guitarrista do Ash.
Para a Anna.
(Daniel, já reparou que o Tim Wheeler é a sua cara, hehe?)

Sunday, April 19, 2009

Rob Fleming X Steven Stelfox




Literatura indie. Quem é o personagem herói de dez entre dez fãs de Radiohead, PJ Harvey ou Teenage Fanclub? O nerd Rob Fleming, criado pelo britânico Nick Hornby para protagonizar o livro "High Fidelity", de 1995. Londrino, na faixa dos trinta anos, dono de uma modesta lojinha de discos, Rob era o camarada "gente como a gente" que ganhava pouco, sofria com a indiferença da ex-namorada, listava as melhores canções, álbuns e filmes de sua existência. E vivia para a Música, sua paixão.

E em 2008, eis que finalmente aparece o vilão! Invenção do escocês John Niven, o autor do hilário livro "Kill Your Friends". Steven Stelfox tem vinte e sete anos na Londres de 1997. Tony Blair no comando, Spice Girls no auge, morte da princesa Diana, "OK Computer" assombrando o mundo e o Britpop ainda em plena forma. Da mesma maneira que Rob Fleming, Stelfox ganha a vida graças ao comércio de Música. Só que as semelhanças começam e terminam aí. Stelfox lucra rios de dinheiro, que gasta em baladas milionárias, cocaína e mulheres. Despreza todo e qualquer ser humano, é dissimulado, sarcástico, manipulador. Assassino. E deixa bem claro: Música tem uma única função. Vender e render. "I don't care which genre something comes from - rock, trance, hip hop, Bulgarian fucking heavy metal - as long as it's profitable".

Na história de John Niven, o espertalhão Stelfox é executivo de uma gravadora fictícia, poucos anos antes da revolução on line (quando o Napster - programa então ilegal de compartilhamento de música pela web - decretou o começo do fim da hegemonia da indústria fonográfica). Steven é um A&R: Artiste & Repertoire. Ou seja, o sujeito encarregado de encontrar, desenvolver novos talentos e fechar contratos. Stelfox odeia o trabalho. Mas finge que adora. Mente para clientes, para os chefes e colegas, para os músicos que adula. E a graça do livro se sustenta justamente na ironia sem papas na língua do psicótico personagem: misturando artistas e bandas de verdade com gente inventada, sobra para todo mundo. Stelfox detona os peixes grandes do mainstream: "Madonna, Bono, the Spice Girls, Noel Gallagher, Kylie...do you really think any of that lot are talented? Don't make me fucking laugh. What they are is ambitious. This is where the big money is. Fuck talent. Forget Rock and Roll, if he'd just turned the other way out of the schoolyard Bono could have been a very successful CEO of a huge armaments manufacturer". Se leu o livro, Geri Halliwell, Spice Girl nos anos 90, deve ter adorado esse trecho: "In return for her fifteen minutes I guarantee you that Geri Halliwell would have risen at the crack of dawn every morning for a year and swum naked through a river of shark-infested, HIV-positive semen - cutting the throats of children, OAPs and cancer patients and throwing them behind her as she went - just to be allowed to do a sixty-second regional radio interview".
E se os grandes são espezinhados, Stelfox destrói de vez as pretensões de bandas alternativas, que ele detesta contratar: "The indie kids figure that (...), just as they were influenced by someone - The Velvet Underground, Jonathan Richman, the Stooges, whoever - then, in the future, young bands will be influenced by them. Maybe so. Maybe a few thousand malnourished cockless freaks scattered around the globe will give a shit. So what? Real people don't care, do they? Real people put stone cladding and UPVC double-glazing on their council houses, they buy four albums a year and they want to be able to hear all the words. And there are fucking billions of them". Entendeu, Rob Fleming?
Stelfox mete o pau não somente nas pessoas, mas também nos eventos relacionados a música. Premiações televisionadas, como o Brit Awards? Um tédio, mas grande oportunidade para conseguir droga na banheiro. Festivais de rock? Quando perguntado por uma banda iniciante sobre como seria a "vibe" do Glastonbury, Steve mente: "Oh, Glastonbury? It's just the most incredible...atmosphere". E depois ironiza para o leitor: "If you reckon that the atmosphere in medieval England - plague, filth, disease and billions of mud-spattered tolers everywhere - would qualify as incredible, then Glastonbury is indeed incredible". E é no backstage de um show que Stelfox cruza com Deborah Harry: "Debbie Harry from Blondie walks by, dressed head to foot in crimson - topped off with a bunch of red roses for a hat. She looks shocking, like an old hooker who's fallen on hard times and gone crazy". Fino e educado.
Olha, não tenho muito o que dizer sobre o livro. Por um simples motivo: não dá, só lendo. São 324 páginas. Em todas, existe um comentário ultra-ácido. Ou uma maldade, uma tirada de sarro genial. Palavrões aos montes. Pó entrando no nariz de alguém. Ou sexo. Algumas vezes, tudo isso junto (quem será o diretor corajoso que vai tentar passar a história para as telas?). É impossível parar de ler (mesmo sendo escrito em um inglês dos infernos, repleto de gírias e expressões londrinas que, não adianta, você não vai entender cem por cento. Não precisa. Tem ótimas sacadas a rodo para garantir diversão por horas). "Kill Your Friends" foi escolhido um dos melhores livros do ano passado pela revista britânica Word. Na contracapa do livro, James Dean Bradfield, vocalista e guitarrista da banda indie Manic Street Preachers, mostra que levou a sátira numa boa e "elogia" o Rob Fleming do Mal: "One of the evilest, most vicious, despicable characters ever. I couldn't put it down". Será que Joe Strummer faria o mesmo? No meio do livro, um policial se admira ao ver uma foto no escritório de Stelfox: o executivo abraçado ao vocalista do Clash. E pergunta: "Como ele é?". Stelfox responde para o tira: "Joe? He's a sweetheart." E para o leitor: "A washed-up cunt".
John Niven fala com conhecimento de causa: Steve Stelfox é baseado em tipos inescrupulosos que Niven conheceu quando trabalhava no departamento de marketing da finada London Records. Em artigo publicado no Times On Line, ele conta ter aprendido que gravadoras não gostam de música. Que, em reuniões de executivos da indústria da música, artistas são apelidados de "clowns", "losers". Que discos são chamados de "piece of shit". E que não se pode prever se uma banda vai ou não ser sucesso (segundo Niven, um respeitável executivo atirou pela janela do quarto andar o primeiro CD do White Stripes, sentenciando que ninguém compraria tamanha droga. O próprio Niven não botou fé no estouro do Coldplay, banda que, na opinião dele, era mais uma cópia de Radiohead).
Fleming ou Stelfox. Um, bom moço, uma enciclopédia de sapiência musical, o amigo gente boa que todo indie quer ter. O outro, mau caráter, conhecedor e admirador dos podres da indústria fonográfica, o sujeito politicamente incorreto que ridiculariza o mundinho indie e o mundão mainstream. Fleming, simpático, mas sonhador. Stelfox, safado, mas lúcido.
Leia os livros e escolha seu herói - ou anti-herói - preferido.
Eu fecho com o destemido, divertido e desbocado Steven Stelfox.

Friday, April 10, 2009

Mark Lanegan em São Paulo!!

AHHHHHHH, ele vem com o Dulli!!!! Valeu a pena mandar mensagem implorando, toda semana, hehehe!
No dia 21 desse mês sai a nova música dele com as Breeders, "The Last Time". E ele também tá fazendo música nova com o Slash (é, aquele). E preparando disco solo! Produtivo, o moço.


1 jul 2009
20:00
Bourbon Street
Sao Paolo BR
4 jul 2009
20:00
Teatro Oriente
Santiago CL
7 jul 2009
20:00
La Trastienda
Buenos Aires AR
11 jul 2009
20:00
Cactus Festival
Bruges BE
12 jul 2009
20:00
Paradiso
Amsterdam NL
13 jul 2009
20:00
Doornroosje
Nijmegen NL
15 jul 2009
20:00
Savoy Theatre
Düsseldorf DE
16 jul 2009
20:00
Stage Club
Hamburg DE
17 jul 2009
20:00
Vega
Copenhagen DK
19 jul 2009
20:00
Royal Festival Hall
London UK
20 jul 2009
20:00
Komedia
Brighton UK
23 jul 2009
20:00
York Theater
Sydney AU
24 jul 2009
20:00
Athenaeum
Melbourne AU
26 jul 2009
20:00
Splendour in the Grass
Byron Bay AU

Tuesday, April 07, 2009

Caravaggio, o pintor punk rocker




Itália, início do século XVII. Foragido da justiça e na mira de seus inimigos pessoais, nobres com sede de vingança. Procurado por homens especialmente designados pelo Papa com uma única missão: caçá-lo nas ruas imundas de Roma. Todas as noites, o sono agitado de Michelangelo Merisi - conhecido por Caravaggio – era vigiado. Por uma faca. O pintor, nascido em 1571 na cidade de Milão, não ousava adormecer desarmado.
Nova Iorque, 1978. No quarto número 100 do Hotel Chelsea, dividindo a mesma cama com a namorada Nancy Spungen, Sid Vicious – baixista do Sex Pistols – dormia rodeado por seringas de heroína. Um hábito. Um vício.
Caravaggio foi um arruaceiro. Rebelde, temperamental, impaciente, beberrão autodestrutivo. Sua presença em tavernas, bordéis, becos e feiras era sinônimo de confusão, de duelos, derramamento de sangue. Sua vida durou apenas trinta e nove anos. Trinta e nove anos de problemas com a lei: Caravaggio foi processado por agredir um garçom, por ofender e assediar mulheres. Por atirar pedras na polícia e portar espada pelas ruas. Foi preso diversas vezes. Feriu um carcereiro e escapou de uma fortaleza, prisão de segurança máxima. E matou um homem em Roma, por causa de aposta firmada durante um jogo de tênis.
Mas o boêmio e competitivo pintor era movido não somente por álcool e sangue fervendo nas veias. Havia um ideal. Caravaggio desejava provar que a Pintura poderia ser acessível, popular, incômoda, provocativa, instigante....e continuar lucrativa. E ainda ser reconhecida e respeitada como Arte.
Como Caravaggio, Sid Vicious foi um desordeiro. Também rebelde, temperamental. Viciado autodestrutivo, acumulou um número considerável de ocorrências policiais: usou uma corrente de moto para surrar um jornalista da revista inglesa New Music Express. Em um clube noturno, ameaçou Bob Harris, respeitado DJ da BBC. Agrediu o irmão da cantora Patti Smith. Vivia fora de controle devido aos efeitos da heroína. E foi preso, suspeito de ter assassinado Nancy no quarto do hotel. A moça foi esfaqueada na barriga e sangrou até morrer. Solto sob fiança, o baixista tentou o suicídio, foi socorrido e salvo. Em fevereiro de 1979, Sid morreu da maneira que Caravaggio temia morrer: dormindo. A combinação entre drogas e sono foi letal para o rapaz de vinte e um anos.
Se na Itália do século XVII Caravaggio foi o pioneiro de um novo movimento artístico - o Barroco - na Londres de 1975 Sid Vicious foi um dos representantes de um novo tipo de rock, que nasceu nos Estados Unidos. O punk. Sid aprendeu a tocar baixo sozinho, ouvindo Ramones, banda americana precursora do punk.
Caravaggio foi criticado por seus contemporâneos. Suas telas não reproduziam a Beleza, e sim o Feio, o Profano, o Mundano. Caravaggio não buscava inspiração nas feições dos quadros e esculturas clássicas para retratar santos, mártires e devotos. O pintor convocava ladrões, músicos de rua, ciganos, pequenos golpistas, prostitutas e os vestia como personagens bíblicos, madonas, cristãos fiéis ou pecadores arrependidos. Pintava os rostos contorcidos, os pés sujos, as mãos calejadas, os corpos castigados e a postura derrotada dos marginalizados e excluídos, transformando criminosos em protagonistas de passagens do Novo Testamento, putas em virgens, órfãos delinquentes em anjos. Na pintura de Caravaggio, os papéis principais eram sempre reservados aos desafortunados. Como nas letras das canções de Lou Reed. Pelas mãos do italiano, o submundo preto-e-branco ganhava cor, passava a adornar as paredes de burgueses endinheirados e os tetos das capelas.
O punk também foi criticado do mesmo modo que Caravaggio: repreendido por pecar pela falta de técnica, de decoro. O punk surgiu áspero e direto, igual a uma obra de Caravaggio, que pintava sem rascunhos, sem ensaios. O punk eliminou os excessos do rock progressivo dos anos 70, reduzindo melodias a poucos acordes, cortando solos de guitarra complicados e intermináveis, produzindo um som rápido, cru, sem floreios, com letras de cunho político. Chocou puritanos, moralistas, desagradou aos fãs do rock sinfônico. Caravaggio foi acusado de destruir a Pintura. O punk, de destruir o Rock.
Caravaggio também cortou excessos: em seus cenários, o fundo era constantemente raso, às vezes totalmente escuro. O foco de luz recaía sobre as expressões faciais dos ídolos, mulheres e homens pintados em estado de surpresa ou choque, de pesar ou sofrimento. As telas de Caravaggio se assemelham a fotografias de shows de rock: músicos e seus instrumentos destacados pela luz do palco contra um fundo negro.
Caravaggio é um artista moderno que foi obrigado a esperar que o mundo se tornasse tão moderno quanto ele. Foram necessários anos para que se aceitasse a ideia de que a Arte poderia se manifestar desacompanhada da beleza convencional, de que poderia ser estranha, inquietante, mas sem perder a honestidade. Visualmente, Caravaggio influenciou até mesmo o REM, banda americana dos anos 90. O REM explodiu graças ao hit “Losing My Religion”. O sucesso da música foi muito impulsionado pelo vídeo idealizado e filmado pelo diretor Tarsem Singh. O contraste entre claro e escuro, atores e atrizes encenando as telas “O Sepultamento de Cristo” e “A dúvida de São Tomás” embelezam a canção entoada por Michael Stipe. Em 1991, o vídeo concorreu a nove prêmios no MTV Music Awards. Ganhou seis, incluindo o de melhor vídeo do ano.
Caravaggio queria mostrar ao observador de suas obras que o angelical e o diabólico, o sexo, a violência e Deus poderiam facilmente, e até mesmo placidamente, coexistir na mesma cena dramática, no mesmo cavalete, na mesma tela. O compositor e cantor australiano Nick Cave incorporou a temática de Caravaggio em suas canções: letras que fundem o sagrado com o profano, o egoísmo criminoso com a culpa, a negação e a reconciliação com a fé. Cave se baseou na história de Lázaro para batizar seu novo álbum, lançado o ano passado - “Dig, Lazarus, Dig!!!” – e inspirar suas músicas. Segundo a Bíblia, Lázaro era um mendigo que, morto, foi ressuscitado por Jesus. Caravaggio montou essa cena, pintou o milagre. E escandalizou seus críticos e inimigos: usou um cadáver de verdade como modelo para Lázaro.

Contestador, visionário, depravado, direto. Brutal.

Caravaggio é puro rock’n roll.

Monday, February 09, 2009

God only Knew





"Oh my Lord don't you bother me/I'm as tired as a man can be" ("Pendulum", Mark Lanegan).


"Trouble comes in slowly/A neverlasting light comes to shine all over me/Bright in the mornin'/ Like all of heaven's love comes to shine on me/And to you who never need/Fuck yourselves, I need some more room to breathe.
Here comes the devil, buy the round/One whiskey for every ghost /And I'm sorry for what I done/Lord it's me who knows what it costs." ("Borracho", Mark Lanegan).

Será que ele lembrou? Quinze anos completos.

No dia 18 de janeiro de 1994, foi finalmente lançado "Whiskey for the Holy Ghost", segundo disco da carreira solo de Mark Lanegan. Ele se lembra daqueles tempos? Nada fáceis. Tempos de implorar para que Deus, os anjos, o Espírito Santo, o demônio....e Jack Endino o deixassem em paz. Foram os anos da heroína. O auge do vício. A gravação de um álbum que se arrastou por três anos, com quatro trocas de produtores. Jack Endino, que já havia trabalhado com o Nirvana, foi um deles. Se não fosse a intervenção de Endino, um Lanegan fora de si teria destruído todo o material gravado. Incluindo "Borracho", canção iniciada com uma voz pastosa, arrastada, em tom confessional que gradualmente acelera, cresce e...explode em desespero. "Borracho" é a condenação, a autopenitência, a humilhação de um homem que pede desculpas a Deus, pois não tem mais nada a oferecer além de...um brinde vacilante com um copo de álcool. Ouvir "Borracho" causa aquela sensação de angústia e impotência que aperta o peito quando a gente vê um bicho muito ferido, mas que ainda luta para sobreviver. É a música de uma época. De um Lanegan que nem existe mais, depositário de uma dor que só Deus realmente conheceu e testemunhou. De um Lanegan que morreu no dia 18 de janeiro de 1994.
E que ressuscitou no dia seguinte. Quinze anos antes. Quinze anos antes do show que vi em 19 de janeiro deste ano, na Union Chapel de Londres.
Naquela noite, Lanegan enfim estava perto dos anjos. Sobre sua cabeça, oito anjos em roda, tocando instrumentos de vidros coloridos. Mark Lanegan em uma igreja. Lugar que um dia ele pensou ser indigno de pisar. Durante o show - uma parceria com Greg Dulli - Lanegan não cantou "El Sol", outra faixa do esquecido WFTHG. "The sun is gone, and that's all I really know/no angels in the air/with hearts as good as gold/the closer you stand to the gates/the more the gates are closed". É, não havia mais sol. Mas os anjos estavam lá, as portas abertas (apesar do frio). E um Mark Lanegan, como sempre, humilde. Os mesmos movimentos contidos, o eterno desconforto, os olhos baixos. Chris Cornell, do Audioslave, foi certeiro ao definir o amigo em uma entrevista: "He's too uncomfortable in his own skin". Pois é. A impressão é de que Mark Lanegan deseja constantemente a invisibilidade. Para ser só voz. E é a voz sublime de Mark que inunda a platéia sentada nos bancos de orações e flutua pela nave da igreja vitoriana em estilo gótico. Que sobe pelo gigantesco pé-direito do hall, esbarra nos anjos transparentes dos vitrais, é absorvida pelas paredes que o arquiteto James Cubitt projetou em 1874. Que encosta no teto reformado graças às doações e ao dinheiro arrecadado com shows, sai pela torre danificada pelos bombardeios da Segunda Guerra....e se dissolve na noite gelada de Londres. Lanegan ao vivo, em ambiente sacro, é incorpóreo. É voz etérea e quase branca que perdeu o fardo negro e feio de anos, e anos, e anos atrás.

Será que ele se lembra de 18 de janeiro de 1994, em Seattle?
Na frente dele, após o show, não tenho coragem de perguntar. Mas tenho coragem para perguntar sobre outra data. Não tão remota. A data de um show em Lisboa. "I remember you", ele responde, voz baixa, pausada. E o olhar cuidadoso é de pergunta. "De novo? Mereço?"

Merece. Sempre.
Cheers, man.

Tuesday, February 03, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXIX



Portrait of Roman Laskowski, de Konrad Krzyzanowski (1872-1922), e Robert Smith, vocalista do The Cure.

Sunday, February 01, 2009

Falência Múltipla

Piccadilly Circus é o Centrão de Londres. A Sé dos caras. E o centro do Centro - ou seja, de Piccadilly - é aquela pracinha/rotatória sobrevoada por Eros. Tudo a ver: a estátua de um cupido paira sobre o Coração da cidade. E o anjinho alado aponta seu arco para o núcleo desse Coração de Pedra e Vidro. Um prédio na esquina com a Regent Street. O prédio da Virgin. O prédio que foi da Virgin, loja de CDs que fechou depois de ter lutado pela sobrevivência sob novo nome, Zavvi. A Zavvi também encerrou suas atividades. O local está lacrado, as vitrines estão cobertas por papelões. Vi há umas semanas. Mais ao lado - na área que seria o Pulmão londrino - a loja HMV tenta respirar. Todos os dias aberta até meia-noite. Comprou a independente Fopp, perto dali, em uma artéria, digo, travessa, da Charing Cross.

Fiquei encantada no dia em que me liguei que o coração do Coração da cidade mais musical do planeta era...uma loja de discos. E agora o coração de Londres parou de pulsar rock.
E o meu ficou apertado.
(Consolo: com o fechamento do comércio musical, acaba o risco da gente entrar em uma loja e dar de cara com o Morrissey pelado em uma capa de single. Pirou, tio? Tímido? Não mais. Mas continua criminosamente vulgar.)

Thursday, January 29, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXVIII



"Young Dutchwoman", 1930, de Moïse Kisling, e Kate Jackson, vocalista do Long Blondes.

Monday, January 26, 2009

Rock Visa

"Por que você está aqui?"

Dez dias atrás, ainda no aeroporto em São Paulo, instruí Marcinha: "Seguinte: o funcionário da imigração em Londres vai perguntar qual o motivo da nossa viagem. Diga que estamos em férias, queremos passear, ir aos locais de turismo e ponto final. Não fala nada do show, tá".
É que eu não estava a fim de complicar, de ter que dar muita explicação. De contar que nós duas planejamos a viagem exclusivamente para assistir a um show de rock...em uma capela. Que não estávamos levando os ingressos conosco. E que eles seriam retirados na noite do show, na bilheteria da igreja (igreja com bilheteria? É).
Ah. E as duas não estavam em férias. Rolou um bate-e-volta: chegada em Londres em uma sexta, show na segunda. Pouso em São Paulo na quarta de manhã. Depois do almoço eu e ela já estávamos nas salas de audiências dos nossos respectivos Fóruns, ouvindo testemunhas...

Saindo do avião, no Terminal 4 do aeroporto de Heathrow, fila da imigração. Uns quatros funcionários ingleses, cada um em um balcãozinho, estavam atendendo os passageiros. Não é necessário visto para entrada na Inglaterra. Mas todo mundo é submetido a uma pequena entrevista para admissão. Bom, às vezes a entrevista não é lá muito curta. Fiquei reparando nas pessoas à nossa frente que já estavam sendo interrogadas. Uma moça, viajando sozinha, teve que mostrar todo o dinheiro que carregava (e não era pouco). O funcionário contava lentamente cédula por cédula. Um casal, acompanhado de um bebê, exibia um bolo de documentação para uma funcionária, em outro guichê. Atrás de mim na fila, o deputado José Eduardo Cardozo conversava com uma mocinha, sem demonstrar preocupação (não me reconheceu. Ele foi meu professor de Direito Administrativo). E o careca me deixava incomodada. Dos quatro funcionários, o Careca era o mais ríspido. Bombardeava um rapaz de camiseta branca com perguntas. Depois de vários minutos, terminou a sabatina do coitado. Barrado. O Careca apontou para uma escada, mandando o moleque descer. A expressão do recusado era uma só: de pavor.
A fila andou até nós sermos as primeiras. Vagou o balcão de atendimento....do Careca. Ele fez sinal para que a gente se aproximasse. Ai.

"-Vamos juntas, Marcinha. A reserva do hotel tá no meu nome".
"-Bom dia. Nós estamos juntas".
"-OK. Mostrem os passaportes. Por que vocês estão aqui?", grunhiu o Careca.
Comecei: "Estamos em férias. Queremos ver a cidade, ir a museus, fazer compras..."
E foi aí que eu mudei de idéia.
".....ver um show de rock..."
Careca, demonstrando um certo interesse: "Show....de rock? Really!? Qual??"
Marcinha: "Gutter Twins"
"Gutter Twins? Não conheço...", disse o Careca, meio desapontado (como se não conhecer uma banda de rock fosse algo imperdoável).
Eu: "É a banda do Mark Lanegan!"
O Careca ficou na mesma. Ainda preocupado com sua ignorância musical, continuou: "Mas...que tipo de música é? É parecido com quais bandas?"
Eu: "Lembra do Nirvana?"
"Lembro".
"Então...Mark Lanegan é daquela época...daquela turma do grunge. O show vai ser em uma igreja, na Union Chapel".
Careca, levemente empolgado: "Sério!? Quando?!"
"Segunda-feira".
"Mas como eu não fiquei sabendo disso!?"
(e eu que sei?, tive vontade de perguntar)
Careca, já querendo exibir sapiência musical: "O Pondera é brasileiro, né!"
"Quê?"
"Entendeu o que ele disse, Marcinha?"
"Pondera...!? Ah....PANTERA!"
Marcinha, bajulando o homem e louca pra entrar logo no país alheio: "É!!! É simmm!!"
Eu não agüentei: "Não é não! Sepultura é brasileiro, não Pantera!"
"Márcia, da onde é o Pantera?"
"Sei lá, hehe".
Aí o Careca leu os cartões de desembarque que a gente havia preenchido no avião.
"Ei!!! Você é juíza!", disse ele, encarando admirado o um metro e meio de Marcinha postado na frente dele.
"E você....é promotora!!", continuou ele. "E vocês estão aqui para ver um show de rock!! Que legal!! Mas....enquanto vocês estão aqui...há gente cometendo crimes no Brasil!!"
Engraçadinho.
O Careca carimbou e devolveu nossos passaportes. "Bom show!! Divirtam-se!!"

E foi assim que a gente entrou em Londres. Quem diria, hehe.
Portanto, dica de viagem! Se você for a Londres, descer no Terminal 4 do aeroporto de Heathrow e tiver que enfrentar um funcionário careca na imigração....não se esqueça: você está em Londres não por causa da Troca da Guarda, do Big Ben ou da Tower Bridge.

Que óbvio. Rock é a palavra-chave e o visto de entrada no....País do Rock.

Wednesday, January 21, 2009

Anteontem, em Londres, em uma igreja...


....com Mark Lanegan!

No dia em que eu acordar, conto tudo!

Wednesday, January 14, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXVII




"Veilled Woman", de Rajmund Kanelba , e Karen Elson, modelo e cantora.

Monday, January 12, 2009

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXVI




"Portrait of Halina Chojecka", de Adam Chmielowski, e Naomi Yang, baixista do Galaxie 500 e vocalista da dupla Damon & Naomi.

Saturday, January 10, 2009

Minha Vovó

Semanas atrás, Minha Vovó - que é a cara da rainha Elizabeth II (hoje e quando moça) - assistia ao "Fantástico" quando se horrorizou com uma informação dada pela Gloria Kalil, consultora de moda. "Colares curtos envelhecem". Porque colocam em evidência o pescoço e o rosto.
Na mesma hora, todos os colares curtos de Vovó foram aposentados e guardados em caixinhas. Vovó disse que só usaria colares longos. Vovó ganhou colares longos no Natal. Comprei um bem comprido e bonito, verde, que combinou com os olhos dela.

Hoje Minha Vovó completa noventa e quatro anos.

Wednesday, December 31, 2008

Música, Direito, Artes....









....em 2008...na minha humilde opinião.

Músicas

1) "Dance, Dance, Dance" - Lykke Li

Sueca de vozinha infantil, lembra a vocalista do Cardigans, Nina Persson. Tudo é lindo nessa canção quase sem instrumentos: a batida delicada, o coral no fim e principalmente o sotaque da mocinha cantando o refrão: "donce, donce, donce"...

2) "The Muzik" e "We Know All About You" - Ebony Bones

Essa maluca aí da foto. Londrina que virou queridinha na cidade, ex-atriz de novelas. Uma espécie de Outkast feminino. Disco punk para lotar as pistas!

3) "I Luv Vodka" - Tabasco e "Lose Control", Revenge of the Cybermen

Punk rock animadíssimo e...tailandês! Pong, Bom, Mon e Champ são os nomes (não onomatopéias) dos integrantes do Tabasco (!). O Revenge of the Cybermen são quatro garotos e uma menina. "Lose Control" soa como Sisters of Mercy misturado com Cramps.

Lei

Bah, nada de Lei Seca. A lei mais sensacional do ano...na verdade não é lei propriamente dita. É a Instrução Normativa n. 55/08, do Ministério da Agricultura, que regulamenta, em seu artigo 4, o modo de preparo da...caipirinha! Também regulamenta a composição e preparo do licor, da batida e da jurubeba doce, hehe.

CDs

1) "Ladyhawke" - Ladyhawke

A Madonna indie da Nova Zelândia. Mas muito mais legal! Disco para os dias de sol.

2) "Directions To See A Ghost" - Black Angels

Bateria marcial, baixo, cítara, órgãos e quilos de guitarras em músicas que parecem hinos de guerra. Disco para as noites mais compridas.

Frases em audiências judiciais (ou durante os intervalos)

"Foi com isso aqui que eu decepei ele."
Réu de crime ambiental, depois que puxou de dentro de uma sacola uma peixeira com metade da minha altura (e quase me fez infartar), para mostrar ao juiz como matou um lagarto da fauna nativa.

"Não. Eu moro só comigo mesmo".
Outro réu, respondendo à pergunta do juiz: "O senhor mora sozinho?".

"Eu não sou gay!"
Senhor de idade e casado, vítima de chantagem praticada por travesti, respondendo a uma pergunta que ninguém fez.


"Espero que você tenha escrito de forma legível. Para ele conseguir entender sua letra. Porque eu não entendo".
Juiz com quem trabalho, difamando minha graciosa e peculiar caligrafia, e comentando a respeito do livro autografado que dei para o Mark Lanegan. Invejoso.

Filmes

1) "The Dark Knight"

Cool. O promotor de justiça vira bandido.

2) "Die Welle" ("The Wave")

Em uma escola alemã, um professor de História, fã de Ramones, começa a dar aulas sobre regimes ditatoriais. Fanatismo, rock, myspace em um filme baseado em caso real. É tenso, muito tenso.

Exposição


Vi em Londres, no Museu Victoria & Albert. Política, design e cultura pop durante a Guerra Fria. Uma exposição que reúne cadeiras em forma de discos voadores, maletas de espiões russos com câmeras escondidas, uniformes de astronautas, fotos arrepiantes do Muro de Berlim, comics, projeções de 007, música de seriados de ficção científica dos anos 60 e até mesmo uma cápsula espacial pendurada no teto. Acaba no dia 11 de janeiro. Se você estiver por lá....não perca! É demais!

Sentença judicial

Um torcedor do Fluminense processou um jornal do Rio. Pedindo indenização porque se sentiu afrontado pela tiração de sarro feita pelo jornal, depois que o Flu perdeu a Libertadores e a chance de disputar o título mundial. E mais bizarro: alegando que a foto acima (genial, aliás!), publicada pelo jornal para mostrar o jogador fluminense indo ao "Mundial", era propaganda enganosa. O juiz ficou puto. Trecho da sentença: "A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: ´Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!!!´, ou ´Eu não acredito!!!´ ou uma simples grunhido: ´hum, hum´, seguido do dispositivo de improcedência."

Livro

1) "Black Postcards: A Rock and Roll Romance" - Dean Wareham

O ex-vocalista do Galaxie 500 e do Luna entregando todos os bastidores do indie rock durante os anos 80 e 90. E admitindo que nunca atingiu o sucesso com o qual havia sonhado. Escrevi um post sobre o livro aí embaixo.

2) "Kill Your Friends" - John Niven

Não li ainda, mas dizem que é hilário. Ficção. Sátira à indústria da música. É o "Psicopata Americano" inglês. Só que agora, ao invés de yuppie, ele é empresário de gravadora indo à falência...

Ação judicial

A do ajudante geral que entrou com ação trabalhista contra empresa, pedindo indenização por doença adquirida e agravada no ambiente de trabalho (porque o moço era obrigado a carregar objetos pesados). A doença? Fimose. A sentença: "Impossível alegar que o problema no membro atingido pudesse provocar perda ou redução da capacidade para o trabalho, já que o “dito cujo” não deve ser usado no ambiente de trabalho".

Shows

The National, em São Paulo
A perfeição. Depois do show, um menino escreveu na comunidade do Orkut dedicada à banda: "Eu tenho orgulho do The National". Eu tenho orgulho do The National.

Calvin Harris, em Bruxelas
Ele, eu e um bando de adolescentes histéricas pulando. E dá pra não pular com isso?

Jane Birkin, em São Paulo
Ela, eu e um bando de sexagenárias sentadas em poltronas. Entre uma música e outra, ela contava histórias do falecido. Acho que ela ainda é apaixonadaça por ele.

Gutter Twins, em Lisboa
O show em que entreguei um livro para meu muso.
Fazer Mark Lanegan sorrir....não tem preço!

Tuesday, December 23, 2008

Em 2009, Eu Quero Ser a Ana Maria Braga

No próximo dia 2 faço trinta e quatro anos (parabéns e presentes não serão rejeitados!). Feliz, porque já descobri o que espero da vida. Aos seis anos, queria ser mãe solteira. Aos nove, chacrete. Aos vinte e cinco, PJ Harvey. Trinta e três, Mrs. Lanegan. Pois agora é definitivo. Eu quero ser a Ana Maria Braga.
E que fique claro: não é pela grana ou fama. Nem por causa da habilidade no manuseio de frigideiras, fornos elétricos, processadores de legumes (Culinária, no meu caso, é algo tão impraticável quanto Ginástica Olímpica). E ter um papagaio de látex empoleirado na janela da promotoria não é exatamente meu ideal de decoração cool.
Eu quero ser a Ana Maria Braga porque, por duas vezes (eu disse duas vezes), ela me surpreendeu com sua capacidade de..hã..."encaminhar vidas"! Não há uma palavra certeira para nomear esse dom. Vou explicar fazendo um resumo dos casos concretos:
Primeira vez: eu era promotora em São Sebastião. Faz cinco ou seis anos. Durante um verão, um rapaz foi preso em flagrante por tráfico. Ele tinha nos bolsos uma certa quantidade de droga (maconha, acho). E dólares. O cara era bem ripongo: pulseirinha de couro no tornozelo, acampado em barraca na praia de Maresias, dreads na cabeça, a cara do Zack de La Rocha, o vocal do Rage Against the Machine. Interrogado pelo juiz, o moço apresentou seu álibi. Ana Maria Braga. "A droga era minha, eu ia usar. Tatuei uma flor de henna no seio da Ana Maria Braga. Ela me pagou com os dólares. Não era dinheiro de tráfico". Eu olhei para o juiz, o juiz olhou para mim. Era uma história muito louca...para ser mentira. O que fazer? Investigar. Primeira providência: assistir ao "Mais Você" no dia seguinte e focar a vista nos peitos da apresentadora, tentando enxergar a rosa (era uma rosa, segundo o réu). Falhou. O decote era recatado. Segunda diligência: arrolar Ana Maria Braga como testemunha no processo. E isso rolou. Ela foi intimada para ir depor no Fórum Criminal aqui em São Paulo. Compareceu, desatou a falar e...confirmou a história do hippie! Tudo verdade. As palavras salvadoras de Ana Maria Braga tiveram o poder de livrar o rapaz do xadrez. A pena aplicada foi só pelo porte de entorpecente para consumo pessoal, para ser cumprida em liberdade.

Segunda vez: essa é recente, as pessoas estão sabendo. Ana Maria Braga tomou as dores de Suzana Vieira, aquela atriz veterana que se casou com um policial. Que não foi um marido modelo. Que, drogado, espancou uma moça e destroçou um quarto de motel. Que perdoado pela esposa traída, abusou da sorte e foi descoberto com a amante. Separação do casal, pedido de gorda pensão (por parte dele). E a indignação da solidária Prag.., digo, Braga, que em rede nacional aconselhou o infiel a...desaparecer da face da Terra. Tarefa que, uns poucos dias depois, ele cumpriu à risca - e com distinção.
Já faço aqui a defesa da Ana: em momento algum ela mencionou que o sujeito merecia sofrer o...como dizer?...Mal Maior! Se ele resolveu seguir a recomendação de forma cem por cento literal - e não figurada - a culpa não é da mãe do Louro José, em absoluto. Cada um sabe de si e é livre para fazer o que tem vontade, ué.
Bom, mas o fato é que, após esses dois ilustrativos episódios, Ana Maria Braga provou seu poder. Maior do que o do gênio do Akinator. E foi ontem, folheando ao acaso um livro jurídico, que o desejo de ser não mais Ana Luisa, mas Ana Maria, bateu forte. Ganhei o livro de presente. Portanto, à minha revelia. É um conjunto de textos, de diversos autores, sobre adolescentes que cometem infrações. Um deles criticava a postura dispensada por juristas à forma como são tratados os menores que delinqüem. Forma que seria muito rígida. Sério, não dá para deixar de transcrever um pedaço. Vou me dar ao trabalho de copiar, mantendo os grifos:
"Existem trabalhos sérios, mas poucos. Na sua maioria são empiristas totalitários embrulhados em papel de presente garantista que, quando se deixam abrir, avivam suas posturas (...). Lugar sempre empulhador, que serve para aplacar a falta dos neuróticos de todos os dias (...). O que há é o acolhimento irrefletido das every day theories indicadas por Baratta ou de americanismos em moda, dentre eles o da Teoria das Janelas Quebradas (...). Mas, de qualquer forma, vive-se em uma democracia, e se estes discursos satisfazem os atores jurídicos, não se pode os obrigar a sair da geléia geral em que se encontram".
Entendeu? Nem eu. Quem escreveu? Não, não foi o Tom Zé. Foi um juiz mesmo (não o conheço). O "artigo" tem umas vinte e cinco páginas. Li e reli uns trechos, pouco consegui compreender. Ou melhor, pouco quis acreditar: o subscritor dessa maravilha diz que a responsabilidade pela delinqüência juvenil é do pai. Devido ao Complexo de Édipo. E do irmão. Não do irmão do moleque traficante ou assaltante. Do Irmão. Ah, só mais um pouquinho, vai: "por detrás de toda a democracia de fachada, esconde-se, na maioria das vezes, uma postura que pode ser designada de Complexo de Big Brother, ou seja, o adolescente precisa sofrer até aceitar a amar o Grande Irmão que lhe oprime. (...). Qualquer similariedade com a postura dos pais e dos atores da Justiça da Infância e Juventude não é mera coincidência. O ato de desrespeito ao Pai da Horda (Freud), representado pelo Grande Irmão não é tolerado. Mas longe de matar o sujeito, o processo de depuração moral o submete a um aniquilamento da autonomia".
Ou seja, a culpa é da lei, da Justiça. Da família e da sociedade que impõem regras e oprimem a natureza livre da meninada, que prefere vender bagulho a fazer lição de Matemática. Sintetizando: para o Tom Zé de toga, a culpa é sua.
O que eu digo? Nada. A melhor resposta encontrei em outro livro, que cita essa frase, de autoria do Volney Corrêa Leite de Moraes Júnior (que também não conheço): "Se o ladrão violento, o estuprador, o traficante de drogas (etc.) são realmente, como pretendem alguns penalistas modernos, apenas vítimas da Sociedade, isso quer dizer que a Sociedade é moralmente muito pior do que eles, porque só alguma coisa mais vil, mais torpe e mais ignóbil que o autor de crime hediondo pode constranger alguém congenialmente puro a se tornar bandido". Nome do livro do Volney? "Crime e Castigo: Reflexões Politicamente Incorretas". Desde já e para sempre, o mais sensacional título para um livro de Direito Penal.
Bom, mas voltemos...para Ana Maria Braga e, como eu já falei, ao seu dom para "encaminhar vidas", "definir destinos" (lindo, não?).
She´s got the Power. She rocks!

Caetano, parnasianos culturais, parnasianos justo-sociais, Daniel Dantas, Gilmar Mendes...

A lista seria um pouco longa. Mas valeria a pena.
Vou pedir para o Papai Noel. Torçam por mim, por favor.
Porque se eu me transformar em Ana Maria Braga, 2009 será um Ano Realmente Novo.
(Beijos, beijos e beijos para todos que passaram por aqui durante esse ano. Boas Festas. Cuidem-se!)

Thursday, December 18, 2008

Wonderwall



Pronto, agora conseguirei trabalhar com total paz de espírito: Radiohead, The Raveonettes e Nada Surf (que não coube nas fotos) fazem companhia para Mark Lanegan na promotoria. E cobrem as rachaduras nas paredes, pois o fórum - inteligentemente erguido sobre um brejo - desabará em no máximo dez anos (segundo o Brenno, que é um juiz otimista).
Os escreventes adoraram. A moça da limpeza ficou encantada. O policial militar, maravilhado!
Convenhamos: bem melhor do que pendurar diploma, não (tem coisa mais cafona?). Ou do que botar na sala aquela mulher mal vestida, enrolada em panos, olhos vendados, segurando uma balança (né, Brenno).

Tuesday, December 16, 2008

Quando Você vira Arte



A University of Saint Andrews, na Escócia, inventou esse programinha divertido: o Face Transformer. Poste lá sua fotinho e veja como você ficaria, caso fosse um modelo (ou uma modelo) pintado por Alfonse Mucha, Botticelli ou Amedeo Modigliani. Também é possível virar mangá. Fofo.

À esquerda, um Modigliani verdadeiro. E ao lado...eu, pintada por um Modigliani muito, mas muito bebaço.

A minha foto original está aqui.

Sunday, December 07, 2008

Robin Hood e Kim Deal



Constantemente tenho a sensação de que vivo em um limbo. No meio do caminho entre dois mundos aos quais pertenço (mas que raramente se misturam). Um por profissão, outro por afinidade. Vou tentar explicar. Bom, sou promotora. De justiça. E gosto de música, de rock. Mas não dessas lástimas tipo U2, Skank. Gosto das bandas e músicos que aparecem aqui no bloguinho. Que nem todo mundo ouve. Ou que praticamente ninguém ouve, em se tratando de outros promotores e juízes. Então, quando estou entre eles, sou "a que gosta de rock esquisito", alternativo. Gravei um CD com músicas do Mark Lanegan para o juiz da Primeira Vara Cível de Atibaia. Ele ouviu e aprovou, disse que parecia Dire Straits. Depois desse insulto, desisti de abordar o assunto "música" na ala jurídica das minhas relações. Assim, comentários sobre o show do The National, o último CD do Ladytron ou o próximo do Twilight Singers ficam restritos ao pessoal que também curte rock esquisito. Geralmente pessoas que estudaram na ECA e seguiram Jornalismo ou Cinema. OK. Só que...eu estudei Direito. E trabalho no Ministério Público. E quando acontece de um "indie rocker" não-jurídico palpitar levianamente sobre minha profissão....minha irritação consegue ser duzentas vezes maior do que ouvir alguém botando Mark Lanegan e Mark Knopfler no mesmo saco.
Dias atrás conheci o traficante dos irmãos Reid e da Kim Deal. Jim e William Reid são os escoceses da banda Jesus and Mary Chain. Kim Deal é a aclamada baixista do Pixies, que hoje toca no Breeders. Conheci o sujeito não no fórum ou na promotoria, algemado. Conheci em mesa de bar da rua Bela Cintra, sentado na minha frente, gesticulando animado para contar a historinha que ele considerou incrível. Sentados conosco, dois amigos em comum que também gostam de rock (esquisito). Fui apresentada a ele como Ana, a promotora. E ele como sendo um blogueiro (mais um), um ex-dono de loja de discos (ou seja, um falido) e um sortudo que, devido a razões desconhecidas por mim, havia ciceroneado o pessoal do Breeders e do Jesus em São Paulo, quando as bandas estiveram aqui para tocar em festival. Falante e sorridente, disse que estava apaixonado pela namorada, que casaria em breve e queria filhos. Uma filha, com nome já escolhido: Manuela. Ótimo. E foi depois dessa exposição sobre planos futuros que teve início a história do show. Contou que havia recepcionado as bandas no aeroporto. Que Kim Deal era fofíssima, que os irmãos Reid eram simpaticíssimos (hã? Os dois têm fama de insuportáveis. Tão insuportáveis que não agüentam um ao outro). Que as bandas tinham um empresário em comum, excelente pessoa, apesar dos neurônios fritos e da incapacidade de articular frases conexas. Que todos eram gente-finíssima, que o trataram super bem e gentilmente pediram que ele....arranjasse droga pra todos (músicos, staff e principalmente para o cara dos neurônios). Que ele cumpriu a tarefa, mas ficou com medo de ser abordado pela polícia no caminho entre a boca e a área VIP, dada a boa quantidade de droga carregada no bolso. Que se fosse abordado teria dito para o "seu guarda" que não iria vender nada, apenas entregar para o pessoal das bandas (!). Que todos ficaram felizes com sua presteza, que após as apresentações os gringos pegaram a encomenda, entraram nas vans, fecharam as portas e se mandaram para o hotel. E que então ficou à vontade na área VIP, bebendo os restos de Veuve Clicquot.
Eu, quieta. Na minha. Não tinha a mínima intenção de dar lição de moral para o cidadão. Logo eu levantaria e iria embora para nunca mais ver o sujeito. Mas aí começou. Ele olhou pra mim, abriu um sorrisão paternal, perguntou minha idade (a mesma idade dele) e quis saber o que eu mais gostava de fazer como promotora. Fui sincera. "Botar traficante em cana". Não contente, ele continuou: quem disse que o tráfico é algo ruim? Você já viu a pobreza de uma favela? Você consegue dormir sem peso na consciência?
Bem. Nada, absolutamente nada, mas nada mesmo faz meu sangue migrar a jato para o cérebro, em velocidade superior à da luz,...do que a leve menção à odiosa, podre, nojenta..."Teoria da Vítima Social". Também chamada "Teoria da Justiça Social". Ou, como costumo dizer, "Teoria Robin Hood".
Para o "teórico-justo-social", o criminoso só comete o crime porque é uma vítima da desigualdade de classes, uma vítima da sociedade. Assim, de criminoso, o sujeito passa a vítima. Se a vítima de um assalto, por exemplo, pertence a uma classe superior à da "vítima social", ela é um "criminoso de classe", aquele que se beneficia com a injustiça social. Portanto, o crime praticado fica justificado: na verdade não é crime, mas...."justiça social".
Robin Hood, seu bando e famílias de camponeses viviam na floresta de Sherwood, na Inglaterra medieval. Explorados pelo Príncipe João, eram obrigados a pagar impostos abusivos. Vendo que seu pessoal passava fome e necessidades, Robin Hood, seu amigo Little John (obeso, embora faminto) e outros chegados pegavam arcos, flechas e iam assaltar a nobreza em seus castelos. No fim do dia, o bando voltava para o acampamento, enfileirava os aldeões e repartia o dinheiro roubado. Aí todo mundo ia confraternizar em torno da fogueira, assando uma ovelha, tocando flauta e dançando.
Segundo o teórico-justo-social, Robinho e seus amigos vivem na favela de uma grande cidade, junto com outras famílias miseráveis. São explorados pela burguesia. Vendo que seu pessoal passa fome e necessidades, Robinho, seu mano Johnny e outros chegados pegam revólver, pistola e vão assaltar os ricos nos bairros de bacanas. No fim do dia, o bando volta para a maloca, enfileira os favelados e reparte o dinheiro roubado. Aí todo mundo vai confraternizar em torno da roda de pagode, fazendo um churras, tocando pandeiro e sambando.
Tenha dó. O teórico-justo-social diz que conhece a favela, mas óbvio que não mora lá. Ele mora em apartamento e pode chegar no prédio mesmo tarde da noite, sem stress, porque não vigora na sua rua nenhum toque-de-recolher. Se morasse em favela, saberia que bandido não é benfeitor solidário. Que bandido não assalta ou trafica em nome do bem comum, mas exclusivamente em proveito próprio. Que quando acontece do traficante financiar serviço social na favela, cobra um preço alto: bico-calado, olhos fechados e fidelidade dos moradores no momento em que os homens invadirem o morro (quem dedurar, morre). E, principalmente, que a grande maioria da bandidagem não vai à zona sul roubar o Rolex do playboy, atirar nos miolos da patricinha ou vender baseado na porta do colégio Dante Alighieri. Vai roubar, toda semana, o mesmo boteco no subúrbio. Afinal, sabe muito bem que o dono não se atreverá a chamar a polícia, pois tem endereço comercial fixo para ser encontrado e sofrer vingança. Vai estourar os miolos do empacotador do Pão-de-Açúcar que foi seu amigo de infância, se ele não quitar rapidinho a dívida do pó que comprou. Vai vender o bagulho na porta da escola municipal, pois lá não tem segurança engravatado postado na frente do portão.
Ah, e outra: Robin Hood não nasceu pobre. Era nobre quando o Príncipe João deu o golpe e tomou o trono de Ricardo Coração de Leão. Robin Hood lutava também por interesse pessoal, para recuperar sua posição social. No fim da história, quando consegue, volta a ser bacana endinheirado.
Digo o que eu vi depois de oito anos na promotoria: vítima de crimes praticados por pobres é gente pobre, não rica. Minha clientela é financeiramente humilde dos dois lados: do assaltante e do assaltado, do traficante e do viciado, do homicida e do morto. Lógico que ocorrem casos de residências de alto padrão invadidas por quadrilhas armadas, de seqüestros-relâmpago de pessoas da classe média. Mas são casos que eu conto nos dedos. Toda semana, mulheres entram na minha sala, aflitas, implorando para que eu dê jeito nos seus filhos, adolescentes que estão usando e vendendo drogas para traficantes maiores de suas vizinhanças. São todas faxineiras. Várias choram, uma já soluçou agarrada no meu braço. Nunca atendi uma bióloga, uma engenheira, uma publicitária. Anos atrás, um velhinho me procurou no fórum. Desdentado, descalço, exalando odor de quem havia caminhado três horas para cobrir a distância entre a zona rural e urbana. Foi se queixar do vizinho, um rapazinho que havia entrado no quintalzinho do seu barraco e afanado um pato, o mais gordo. Contou que além do pato e do barraco, ele era dono de uma galinha e de outro pato (mais magro). Só. E que o mocinho já havia avisado que voltaria lá para passar a mão no outro pato, pois nunca seria punido pela Justiça por furtar uma somente uma ave. Eu tive vontade de pedir à juíza que o filho-da-puta do tal vizinho fosse trancafiado numa masmorra. Mas em um ponto ele tinha razão: a acusação em Juízo contra o autor do furto de um pato causaria comoção. Eu iria parar no Jornal Nacional e no Estadão (e duvido que as reportagens esclarecessem que o patão constituía 25% do patrimônio total de um lavrador). A brigada dos direitos humanos iria me malhar sem piedade, Eduardo Suplicy me telefonaria de novo (é, ele me ligou uma vez. Pessoalmente. Para pedir que eu olhasse bem a situação de um injustiçado que fora preso por engano, por roubo. Eu olhei. E descobri que o assaltante havia sido reconhecido por diversas vítimas, e que havia mandado espancar a filha de uma delas. Foi condenado e fugiu da cadeia).
Aliviar a barra de um bandido pobre, sob o argumento da injustiça social, é desrespeitar a vítima igualmente pobre mas que nunca surrupiou um fósforo, vendeu uma pedra de "crack", aplicou um golpe para suprir sua carência econômica. Se eu anunciar para um modesto pai de família que não tenho o direito de pedir a prisão do malandro pobretão, que alicia seu filho para o tráfico, porque o milionário Daniel Dantas continua em liberdade....esse senhor cuspirá na minha cara. E com toda razão. Ele paga impostos, que se transformam no meu salário. Tem todo o direito de cobrar que as autoridades garantam a sua segurança e a de sua família.
Em linhas gerais, tudo que escrevi acima eu disse para o tal serviçal do Jesus and Mary Chain. Em um tom de voz um tanto irado, admito. Em respeito aos nossos amigos em comum, que já estavam desconfortáveis com os rumos da conversa, não falei para o indie traficante que se por azar, daqui quinze anos, a Manuela dele aparecesse em casa, com os neurônios fritos e incapaz de articular frases conexas, ele com certeza iria procurar gente como eu, exigindo que o responsável fosse encarcerado. Ainda que esse sujeito fosse também responsável pelo abastecimento oficial das narinas do Morrissey ou da seringa dos últimos Ramones vivos. Não adverti o cara de que se ele fosse pego pela polícia com droga e alegasse que não iria usar nada, mas só presentear terceiros....seria preso do mesmo jeito. E que teria confessado o tráfico, pois a lei não faz distinção entre aquele que porta tóxico para vender ou para entregar gratuitamente. Desavisado, quem sabe o esperto não é preso em flagrante em março, no show do Radiohead.
Final da noite no bar, despedidas frias. Depois da revolta, lamentei. Um rapaz negro, classe média, de pensamento tão estreito, sentindo-se especial porque foi bem tratado por Kim Deal e companhia. Sim, a galera estava em terra estranha e não sabia onde arranjar uns aditivos; lógico que não trataria mal um nativo, contratado justamente para fazer o servicinho chato de office-boy na boca. Gringos tão legais que, quando as portas das vans se fecharam, o meu amigo estava do lado de fora delas, não dentro dos veículos. Ninguém o chamou para as festas. Mesmo assim ele se deu por feliz por poder consumir as sobras largadas pela descolândia fina e branca do rock alternativo.

Boa sorte, Manu.

Thursday, December 04, 2008

A Banda de Rock de William Faulkner




A voz do branquelo Mark Lanegan, vocalista convidado, emoldurada por coral gospel, feminino. Banda inglesa, rock eletrônico mesclado por soul. Soul também no nome do grupo: Soulsavers. Influências declaradas: Joy Division, o hip-hop do Public Enemy, William Faulkner.

William Faulker?

William Faulkner nasceu no Mississippi, sul dos EUA, final do século XIX. Terra emprobrecida, arrasada pela Guerra da Secessão. Entre 1861 e 1865, os Estados do Norte industrializado lutaram contra os Estados do Sul agrícola, aristocrata, escravocrata. Massacrada pelo conflito, a população sulista dividiu-se: famílias de brancos protestantes, financeiramente arruinadas pela abolição, marginalizavam os negros recém-libertados. Os ex-escravos eram impedidos de se integrar à sociedade, comprar um pedaço de chão, votar. Nascia a Ku Klux Khan. Época de degeneração moral e física. E, algumas décadas depois, também ambiental.

A paisagem, o passado, a cultura, a religião e a tensão racial do Mississippi foram matéria-prima a serviço do humilde Faulkner - que abandonou os estudos para trabalhar - na criação do cenário e enredo de seus romances. Os dramas vividos pelos personagens rudes, miseráveis, vazios de esperanças transcorriam na fictícia cidade de Jefferson, localizada no igualmente fantasioso Condado de Yoknapatawpha, no Mississippi. Addie Bundren, a doente matriarca de uma modesta família de fazendeiros, aguarda a morte em casa. Acamada, escuta seus filhos serrando, martelando e dando forma ao seu futuro caixão. Seu último desejo é ser enterrada em Jefferson. A iminência de chuva é uma ameaça à conclusão do trabalho. O capítulo inaugural de "Enquanto Agonizo" ("As I Lay Dying") é um soco no estômago. O livro narra a marcante e penosa viagem do clã Bundren carregando o caixão da falecida Addie rumo a Jefferson. Em 2007, parece que Soulsavers e Mark Lanegan providenciaram a trilha sonora perfeita para o périplo dos Bundren. A bateria sombria de "Ghosts of You and Me", segunda faixa do disco lançado ano passado, acompanha o vocal grave de Lanegan: "Goodbye Mary/Sweet Mother mine/Greyiest Sky/Gun metal eyes (...) Do it Darling, dig my grave/This cemetery is my own". Emocionante.
"Take me to the station/And put me on a train/I've got no expectations/To pass through here again/Once I was a rich man and/Now I am so poor". "No Expectations", outra canção do álbum "It's Not How Far You Fall, It's The Way You Land ", é um cover dos Rolling Stones que toca no mesmo tema de "O Som e a Fúria" ("The Sound and the Fury"), um dos principais romances do século passado: a decadência econômica e o fracasso nas relações pessoais dos homens e mulheres da família Compson, respeitada dinastia sulista descendente de um herói da Guerra Civil Americana. Já em "Luz em Agosto" ("Light in August"), o reverendo Gail Hightower é um homem amargurado, repudiado pelo povo de Jefferson e banido da igreja após um escândalo envolvendo sua esposa. Mora na cidade, mas é desprezado por seus habitantes. Torna-se descrente e começa a encarar a vida como um episódio passageiro, do qual não faz mais questão de participar. A força da autoridade da religião, a desilusão e a perda da fé aparecem na história de Faulkner e na triste letra de "Jesus of Nothing": "Jesus of nothing/Judas to touch/On my way/Going outta my head/(Last go around/Going outta my mind)/My trail's nearly ended".
A fúria da natureza, desgrançando e modificando destinos, é o mote de "O Velho" ("Old Man"), um dos dois contos de "Palmeiras Selvagens" ("Wild Palms"). "Velho" é o apelido do rio Mississippi. Na história de Faulkner, por culpa de um dilúvio, o Mississippi transborda e uma enchente de proporções bíblicas assola parte do Sul dos EUA. Prisioneiros de uma colônia penal rural têm que ser removidos; durante o traslado, um condenado negro cai da embarcação e some na correnteza. Ele sobrevive, consegue um bote. Resgata uma mulher grávida e procura ajuda. Só que a visão de sua roupa de detento bloqueia a solidariedade das pessoas, a ponto de, sozinho, não ter opção senão auxiliar a moça no momento do parto. Sua vida apenas faz sentido na prisão, e é para lá que o preso sonha voltar. Quando finalmente consegue, tem sua pena aumentada. Por....tentativa de fuga. As imagens dos efeitos de tragédias naturais, que desencadearam tragédias humanas, são parte do lindo vídeo de "Kingdoms of Rain", uma das canções mais tocantes e desesperadas que Mark Lanegan compôs (no auge de seu vício em heroína), presente no seu segundo disco solo, "Whiskey for the Holy Ghost", e que foi regravada pelo Soulsavers. No clipe, uma menina caminha pelo subúrbio de New Orleans e presencia o cenário desolador provocado pelas tempestades do furacão Katrina: casinhas arrombadas, saqueadas e abandonadas, árvores tombadas sobre telhados, cartazes com mensagens de esperança misturados a escombros e restos da destruição. Como se entoasse um hino religioso, Lanegan murmura os versos mais sublimes de sua carreira: "Are those halos in your hair/Or diamonds shining there/Without a hope, without a prayer/This rain beats down like death/You turn your eyes to better men/Before I go I'm hangin' a cross on the nail/I hung one for you in there./Girl lay your shame to rest/and hold the lies close to your breast/You stoop to feed the crows/Some scratch the truth already cold/Before I go I'm hangin' a cross on the nail/I hung one for you in there./And every kingdom of rain comes pourin' down/Cause I loved you so much/Cause I loved you so much". No final, as imagens em preto e branco da atual New Orleans são substituídas por imagens antigas, da grande enchente do rio Mississippi em 1927. A mesma enchente que é personagem principal de "Old Man".
Soulsavers com Mark Lanegan. A banda de rock de William Faulkner.

Wednesday, December 03, 2008

Akinator

Que medo!!
Meu ex-estagiário mandou o link desse site, o Akinator (por que estagiários têm o dom para achar coisas bizarras na Internet?). É um joguinho que lê seu pensamento. Você pensa em alguém famoso. O geninho tenta adivinhar quem é. Então faz perguntas prontas, do tipo..."A pessoa toca guitarra?", "A pessoa já foi presa?", "A pessoa tem pai famoso?"...que você responde somente com "sim", "não", "não sei", "provavelmente sim" ou "provavelmente não".

Bom, joguei. Sem botar fé e me achando o máximo. Nunca iriam descobrir em quem pensei! Depois de apenas vinte perguntas - e o mais impressionante: beeem genéricas - aparece a adivinhação, na forma de uma foto do....Mark Lanegan, hehe!

Tô besta.
A paixonite pelo Lanegan é tamanha que até um programinha de computador saca logo, em segundos!
Próximo post, aliás, é sobre.....
É.
(ah...o Akinator também funciona com celebridades nacionais. O Jonathan, meu ex-estagiário, pensou no Pedro de Lara (!). O gênio acertou.).

Sunday, November 16, 2008

Gig Posters - Parte II




A paternidade deles é antiga e distante. Jules Chéret foi o pioneiro, na Paris de 1860, embora o pintor Henri de Toulouse-Lautrec tenha se tornado o mais conhecido e célebre. Surgiram para anunciar espetáculos de cabaré ilustrando as dançarinas do Moulin Rouge, o famoso prostíbulo parisiense. O tcheco Alphonse Mucha especializou-se na confecção deles, promovendo as peças teatrais da atriz e cortesã Sarah Bernhardt. Na Inglaterra, Aubrey Beardsley foi o artista mais destacado, sempre trabalhando nas cores preta e branca. Chegando em Paris, o norueguês Edvard Munch também se interessou por eles. Eles são descendentes diretos de Cherét, Toulose-Lautrec, Mucha, Munch, Klimt. E de tantos outros que elegeram as gravuras e ilustrações como manifestação de uma Nova Arte. Ou, em francês, Art Nouveau.

Quando apareceram, durante a Belle Epóque, o estilo musical que hoje eles anunciam nem ao menos era nascido.
Eles são lindos, trabalhosos, viciantes. Eles são...os cartazes de shows.
E melhor: hoje, em 2008, eles são os gig posters. Ou concert posters. Enfim. Os posters de rock.


O que identifica - visualmente - o trabalho de uma banda? Na época dos LPs, a bolacha era vendida no meio de dois grandes papelões quadrados, ilustrados com desenhos ou fotos. Quando os CDs jogaram os LPs para escanteio, os tais papelões viraram quadradinhos de papel, protegidos por paredes de plástico. Mas agora...na era mp3....música não precisa mais de suporte físico. Nem de capas. Prático, lógico, mas...também o fim daquela diversão de poder relacionar uma banda a um desenho ou foto. Afinal, como ouvir London Calling, do Clash,...e não lembrar do baixo de Paul Simonon prestes a se despedaçar no chão? E Abbey Road, dos Beatles? A rua mais famosa da História do Rock...graças a uma capa de disco!
As capas estão condenadas à extinção. Mas...enquanto houver shows (e mp3 nenhum vai exterminar a música ao vivo)...haverá gig posters. Ufa.


Gig posters compõem um mundo vasto, mega-charmoso, poético e pouco comentado do rock. Aqui no Brasil, por exemplo, ilustrar bandas e artistas não é uma tradição. Que bom. Ninguém merece topar por aí com cartazes da Pitty ou do Chorão. Mas lá fora, gig posters são uma febre.
Descobri essa mania gringa depois que topei com o poster lindão do sempre-aqui-comentado Mark Lanegan. Cartaz desenhado pelo gente finíssima Guy Burwell. Burwell é apenas um entre milhares de ilustradores dedicados a despertar nossa atenção - e nossos sentidos - para essa forma de arte plástica tão atual. Os trabalhos desses artistas estão expostos naquele que é praticamente um monstruoso museu on line: gigposters.com. O site é uma delícia para qualquer cidadão ou cidadã que ame música ou pintura. Música ou fotografia. Música ou comics. Música ou design. Apaixonante. Reúne mais de sete mil designers e mostra cerca de noventa e seis mil posters, de mais de oitenta e nove mil bandas e músicos!! Há fóruns de discussão e também classificados para os cadastrados no site. Isso sem falar que a história dos shows de rock é totalmente desfilada no gigposters.com: cartazes clássicos de Elvis Presley, Beatles (da turnê sueca, incrível!), da apresentação do Clash, Sex Pistols e Buzzcocks em Londres, agosto de 1976, no clube The Screen (preço do ingresso marcado no poster: uma libra!) e do Nirvana pré-fama, tosco, anunciando show por cinco dólares e abatimento no preço do ticket para quem levasse latas de comida! Passeando pelo site (que consegue te hipnotizar por horas) dá para ver bem a evolução das ilustrações: até o final da década de 80, muitas eram simples letreiros, acompanhadas de desenhos rascunhados ou por fotos sem graça das bandas. Hoje, são meticulosamente pensadas e elaboradas. Fogem do óbvio e não se limitam a retratar artistas como se fossem caricaturas. E não apenas querem chamar atenções para os shows das bandas que promovem, mas desejam também um lugar nas paredes dos quartos dos fãs. Nada mais justo. Tá cheio de gente de talento pintando imagens que enchem os olhos: Tara McPherson usa cores geladas para preencher figuras de traços infantis, Guy Burwell me confirmou que foi buscar inspiração nas pinturas de Gustav Klimt para um poster do The Cure (quando vi, achei parecido com Klimt e perguntei para ele se era piração minha. Não era, he), o time de designers da The Small Stakes sabe usar a criatividade e reproduzir idéias geniais usando poucas linhas e cores. Como nesse poster do The National.

Além disso tudo, no gigposters.com é possível brincar de classificar uma banda de acordo com....seu bom ou mau gosto estético, hehe. É divertido. Por exemplo: The Decemberists. Mais uma banda de indie rock barroco, nos moldes do Arcade Fire. Vi o show na Espanha, chato pra burro. Não faz jus aos maravilhosos cartazes enfileirados no gigposters.com. Os mais lindos do site, você pode conferir. As dezenas de posters do Queens Of The Stone Age seguem a temática de Toulouse-Lautrec: pelo jeito, Josh Homme também curte desenhos de meninas com pouca roupa, fazendo caras e bocas. Puro rock. Bom, meu poster preferido, entre as centenas que vi, está aí em cima: a andorinha salvando o navio quase naufragado. Mega simples e emocionante. Palmas para o Modest Mouse! Ao lado dele, outro sensacional: um cavalo "radiografado" anunciando um show da banda Blonde Redhead.

Bem, não consegui perambular pelo gigposters.com e....não ter vontade de torrar meu dinheirinho em posters! Decidi que São Lanegan - olhando por mim na promotoria - merecia companhia. Pois então. Enquanto mulheres da minha idade escolhem cortinas, pisos, azulejos e objetos de decoração para ornamentar suas casas....eu...ainda escolho posters de rock. Mas pelo menos escolhi os meus com esmero. E não foi fácil: as ilustrações tinham que combinar com o cartaz do Mark, com os Van Gogh e Chagall que já estão na minha sala, com a cor sorvete-de-creme (!) que o Tribunal de Justiça elegeu para cobrir as paredes do Fórum. Descartei os posters de fotografias de artistas. Do tipo que vende em lojas de discos, naqueles mostruários que a gente vira como se fossem páginas de um livro gigante. Thom Yorke olhando vesgo para os inquéritos policiais sobre minha mesa? Não rola. Depois, por mais que eu admire os bíceps do Trent Reznor, os ombros do Dave Grohl e anatomia completa do Lanegan....botar no Fórum posters-fotos dos meus musos seria total cafonice. Promotoria não é fã-clube. E mais. Os nomes de algumas bandas ficariam um pouco....hã....fortes se expostos em uma promotoria de justiça. Bandas de que gosto, até. Mas que foram vetadas. Convenhamos, seria meio assustador alguém entrar na minha sala e dar de cara com cartazes do The Killers, The Kills, A Place to Bury Strangers, And You´ll Know Us By The Trail of Dead ou She Wants Revenge. Acho que eu teria problemas com a Corregedoria do Ministério Público, hehe. Se bem que...se eu colocasse esse cartaz da dupla de música eletrônica Justice na promotoria....não tenho dúvidas de que todos meus problemas com adolescentes infratores estariam solucionados. Bastaria o menino traficante entrar na minha sala, ver o poster para desistir, forever, de aprontar pelas ruas da cidade. Eu nem precisaria dar bronca, concordam?
E ao fim de uma criteriosa seleção...os ganhadores! Encomendados e comprados. Coming soon...nas minhas paredes: a mod girl do Raveonettes, o poster tragi-romântico do Nada Surf e....uma obra-de-arte do Radiohead. Absolutamente linda e indescritível (confirmando minha obsessão por asas).

Monday, November 10, 2008

Gig Posters - Parte I

Asas enormes, abertas atrás dos ombros largos. Uma auréola pairando sobre o cabelo curto. Coraçãozinho exposto no peito esburacado e o sangue escorrendo através do braço, oculto pela manga do terno, até encher o copo de whisky.
Pronto, agora sou mais feliz: ao lado de um Chagall, Mark Lanegan está pendurado na Quinta Promotoria de Justiça de Atibaia. Lugar mais conhecido por "minha sala".
E não, isso não é esquisito ou deprê. Ou pelo menos não é mais esquisito ou deprê do que ter na sua parede um homem semi-nu, com espinhos enterrados na testa, sangrando pelas mãos e pés pregados em uma cruz...
Mark Lanegan, by Guy Burwell. Beautiful.

Thursday, November 06, 2008

Solidariedade


Para a pessoa que, às duas da manhã, entrou neste blog depois de ter digitado no campo de busca do Google: "como fazer um cartaz sobre banquete de nabucodonosor":

Filho (ou filha), peça já para seus pais te tirarem dessa escola.

Se não der certo, pelo menos vou torcer para que sua professora de História um dia arda no fogo do inferno, tá.

Boa sorte!

Wednesday, November 05, 2008

Ladyhawke




Ela é neozelandesa. Faz parte dessa nova leva de bandas da Oceania que misturam rock com eletrônico. Tipo Cut Copy, The Presets, Van She. Lançou o primeiro CD no final de setembro. Não tem faixa ruim. Em setembro mesmo, ela se apresentou em Londres. Por coincidência, na mesma noite da chatíssima banda canadense Ladyhawk (sem o "e"). Eu estava em Londres mas perdi (porque fui ver....adivinhe). Um dos piores erros da minha vida. É pop anos 80 com bateria alta e músicas aceleradas. Sem aquelas firulas de electro minimalista que quer ser descolado e elegante. Tipo Peaches e Miss Kittin. Nada tem daquele som aguado do CSS. Já vi que foi esnobada por blogs do UOL. Afinal, cometeu o crime...de ser pop. Os remixes feitos por Van She, Cut Copy e Peaches foram elogiados. Porque dão uma "quebrada" no vocal, na melodia - pop - e transformam as faixas em electro elegante, minimalista, descolado e..."indiemente" aceitável.
O povo indie vai torcer o nariz. O mainstream vai ignorar - pois é pop do bom. A Ilustrada falará mal.

E se tudo o que eu disse não bastar para te convencer a ouvir a moça....bom, ela não se envergonha de usar o mesmo penteado da Bonnie Tyler. Nem de fazer um vídeo brega parecendo a própria Bonnie Tyler. Pela coragem, merece pelo menos uma audição, vai.

Saturday, November 01, 2008

Quando a Arte vira...Direito




Edvard Munch, auto-retrato, e Antonio Scarance Fernandes, Professor de Direito Processual Penal da USP.

Quando mais jovem, Munch lembrava muito Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys. Mas coloquei os dois lado a lado e não ficou muito bom. Aí achei esse auto-retrato, mostrando o pintor mais velho. A cara do Scarance! Então dedico esse post à...hã..."ala jurídica" que lê o blog - e que muitas vezes bóia quando falo de Mark Lanegan, Black Angels, Ladytron e congêneres. Mas que nem por isso deixa de passar por aqui para ler as doideiras que escrevo.

Cazetta, Gilberto, Kfouri, Madeira, Guilherme, Fernando, Paulo, Brenno...meninos, essa é pra vocês.
Obrigada pelas visitas!

Monday, October 27, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXV



Grigoriy Druzhinin (1840), de Pavel Fedotov, e Matt Berninger, vocalista do The National.

Tuesday, October 21, 2008

Musique Non Stop


PJ Harvey, Trent Reznor, Bobby Gillespie. Parabéns, vocês conseguiram. Aos 33 anos, oficialmente proclamo: estou ficando surda. E não é porque, no meu carro, o volume 9 do som parece muito débil para amplificar Killing Joke. Também não é porque, no Fórum onde trabalho, o juiz já responde com irritação (né, Brenno?) quando faço o mesmo pedido pela centésima vez: "Quê? Não ouvi nada. Dá pra repetir?". É porque...porque...hamm....comecei...a ter....alucinações musicais. Prontofalei.
Aconteceu no início do mês, depois que eu baixei "The Prodigal Sun", da banda texana The Black Angels. Bateria marcial, guitarra compassada, quase uma marcha. Ou seja, a típica música que age como detonadora da tecla "repeat". De novo. E de novo. Só mais uma vez, vai. Juro que é a última.
E foi assim - após uma seqüência de no mínimo vinte audições - que meu cérebro decorou "The Prodigal Sun". O problema é que decorou...com louvor. Primeiro sábado de outubro, de manhã. Chovia quando eu tentava descer a rua na qual fica o prédio da minha professora de inglês. Sem guarda-chuva, impedida de correr por culpa da bota de salto fino. Um camburão (!) preto passou por mim, parou no sinal vermelho. Som jorrando alto pelas janelas abertas. Era a introdução de "The Prodigal Sun", que parava antes da entrada do vocal e se reiniciava continuamente! Esqueci que meu vestido estava encharcado, que o cabelo pingava. Fiquei lá, pernas tortas na calçada, petrificada, boca aberta. Carro de playboy, na Vila Madalena, tocando a mega-obscura Black Angels é fato tão absolutamente impossível quanto, digamos, Sarah Palin cantando "Máquina de Ricota", música do Bonde do Rolê que é uma verdadeira ode à finesse. Não aconteceu de verdade. Foi uma miragem sonora. Foi meu cérebro.
Tenho certeza. E fui procurar embasamento científico para explicar minha tamanha...aimeuDeus...confusão mental. Achei. Em um livro que eu já tinha em casa, na fila para a leitura. "Alucinações Musicais - Relatos Sobre a Música e o Cérebro". E foi aí que concluí que estou ficando surda. Captou? Não? Então, com a palavra...Oliver Sacks, o simpático neurologista e psiquiatra (ainda bem que minha mãe não lê esse blog), autor do livro, que tratou uma velhinha surda cuja cabeça não parava de "tocar" temas musicais da "Noviça Rebelde" (coitada): "expliquei que suas alucinações não eram psicóticas, mas neurológicas, chamadas alucinações 'de liberação' ('release' hallucinations). Por causa da surdez, a parte auditiva do cérebro, privada da usual entrada de dados externos, começara a gerar uma atividade espontânea própria, que assumia a forma de alucinações musicais, sobretudo memórias musicais de sua juventude. O cérebro precisava manter-se incessantemente ativo e, se não obtivesse sua estimulação usual, fosse ela auditiva ou visual, criava sua própria estimulação na forma de alucinações". As canções entoadas por Julie Andrews foram para a velhinha, então, aquilo que "The Prodigal Sun" foi para mim: earworms, agentes musicais cognitivamente infecciosos. Em bom português: melodias que grudam no cérebro como sanguessugas. E que se repetem over and over and over....

Impressionante, não? E Dr. Sacks não se limita ao caso da idosa alucinógena: cada capítulo do livro é dedicado a um distúrbio neurológico ou perceptivo ligado à música. Ele narra, por exemplo, a história do cirurgião ortopédico que, durante uma tempestade, foi atingido por um raio (!). O homem sofreu uma parada cardíaca. Foi reanimado e, dias mais tarde, retomou suas atividades normais. Com uma diferença. O médico, que nunca havia dado muita bola para música, inexplicavelmente se viciou em música de piano. Comprou quilos de discos, partituras, descolou um piano. Quarentão, aprendeu sozinho a tocar e a compor! Passou a dedicar seu tempo livre ao instrumento, divorciou-se! Até finalmente se apresentar em concertos, ser aclamado e invejado! Uau! Depois dessa, fui até reler entrevistas antigas do Mark Lanegan, tentando descobrir se a causa de seu talento também tem a ver com uma descarga elétrica que sacudiu os neurônios. Mas não. Quando jovenzinho, ele somente foi atropelado por um trator que partiu suas pernas.

O caso do "Médico e o Raio" ilustra uma ocorrência de musicofilia provocada por lesão cerebral (o raio afetando o cérebro) ou por falta de oxigênio no cérebro (em decorrência da parada cardíaca temporária). Por outro lado, em seu livro o Dr. Sacks também relata casos de incidência de...musicofobia! Está lá na página 34: "o caso mais impressionante foi o de um eminente crítico musical do século XIX, Nikonov, que sofreu seu primeiro ataque durante a apresentação da ópera O profeta, de Meyerbeer. Dali por diante ele foi se tornando cada vez mais sensível à música, até que por fim quase toda música, por suave que fosse, causava-lhe convulsões. (...) Nikonov, profundo conhecedor e apaixonado por música, acabou sendo forçado a deixar sua profissão e a evitar qualquer contato com música." Que dó. Bom, pelo menos o pobre Nikonov não viveu o bastante a ponto de atravessar os anos e inadvertidamente chegar a ouvir qualquer disco do Ed Motta. Morreria fulminado no ato, judiação.
Mas nem sempre música sofrível é responsável por epilepsia musicogênica. Oliver Sacks conta o drama do jovem G.G., vítima de ataques epilépticos desencadeados por....baladas (!!): "ele diz que o estilo mais provocativo é o 'romântico', especialmente as canções de Frank Sinatra ('Ele me emociona'). Afirma também que a música tem de ser 'repleta de emoções, associações, nostalgia' - quase sempre, músicas que ele conheceu na infância ou adolescência. Para provocar um ataque, a música não precisa ser alta; se for suave pode ter os mesmos efeitos". Meu Deus. Para G.G., qualquer canção entoada por Thom Yorke (cujo cérebro derrete na foto acima) agiria como cianureto em forma de ondas sonoras. E nunca, jamais, em hipótese alguma...G.G. poderia ir ao show do The National, no próximo sábado (levante a mão quem vai!)! Porque os primeiros acordes de "Fake Empire" ou o verso mais lindo da galáxia, na voz de Matt Berninger cantando a dolorosa "Secret Meeting", induziriam uma terrível crise de musicolepsia: "And so and now/I'm sorry I missed you/I had a secret meeting in the basement of my brain".

Mas voltemos à velhinha assombrada pelos trinados de Julie Andrews vibrando o gogó nas pradarias austríacas. Dr. Sacks não mentiu para a atormentada anciã: o distúrbio não tinha cura. A esperta senhora não se abateu: já que não poderia matar o earworm do Mal....cultivou earworms do Bem. Conta o psiquiatra: "nesse meio-tempo, a sra. C. tentara ampliar seu repertório de alucinações, supondo que, se não fizesse um esforço consciente, ele acabaria por reduzir-se a três ou quatro músicas repetidas indefinidamente (...). E, embora a sra. C. não fosse capaz de fazer a música parar, às vezes conseguia, com força de vontade, trocá-la". Ah, a sabedoria dos mais velhos...

Minha surdez progride. Já sofro alucinações musicais. Oliver Sacks não vê chances de recuperação. A velhinha teve uma ótima idéia.

"The Prodigal Sun", do Black Angels. "Disintegration", do Cure. "Natural's Not In It", do Gang of Four. "More or Less", do Screaming Trees. "Transmission", do Joy Division"....

Despeço-me. Hora de baixar alguns earworms. Para salvar no meu iPod neurológico...

Wednesday, October 08, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXIV



"Donna in Piedi", de Fernando Botero, e Beth Ditto, vocalista do The Gossip...
...E Beth fazendo cover da breguíssima Careless Whisper, do George Michael, hehe:

Monday, September 29, 2008

Uma Imprecisa Coisa Feliz




"When the willow bends/ towards the end of day/ And twilight falls again/ To the funny sound that a blackbird makes/ Twilight falls again/ As no good reason remains, I'll do the same/ Thinking of you/ One day a ship comes in, one day a ship comes in/ But I can't say how or when/ But I know somewhere the ship comes in every day" ("One Hundred Days", Mark Lanegan).

"Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito/ E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios/ Que largam do cais arrastando nas águas por sombra/ Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pálido/ E esta paisagem é cheia de sol deste lado.../ Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio/ E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol..." ("Chuva Oblíqua", Fernando Pessoa).

Eu tinha um plano. Traçado com meses de antecedência. As escolhas não poderiam ser erradas. Lugar: Lisboa. Bar pequeno, palco e platéia nivelados. Ingresso comprado antes da passagem aérea. Encomenda feita pela net. Hotel reservado, OK. Início de setembro. Vambora. Vai dar certo. Será?
Hoje quero preparar-me,/ Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte.../Ele que é decisivo./ Tenho já o plano traçado (...)/ Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,/ Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...("Adiamento", Fernando Pessoa).


Noite fresca de verão em Lisboa, poucas pessoas no Santiago Alquimista quando chego, adiantada. Duas pessoas na frente do palco. Beleza. Garanto o meu lugar, ao lado de uma menina que, na penumbra, tenta ler um livro de dimensões enciclopédicas. Aos poucos, a pista vai enchendo. Gente normal. Nada que lembre o povo indie paulistano, padronizado e provinciano. Bom...gente..quase normal. Um senhor sexagenário, óculos, camisa pólo esticada sobre a barriga e arrumada dentro da calça, pede uma cerveja no bar. Para seu acompanhante - cinqüenta anos (!) mais novo - pega uma Coca-Cola. O menino parece empolgado, ansioso. O avô, meio constrangido.
Ao ver o neto a brincar,/ Diz o avô, entristecido: "Ah, quem me dera voltar/ A estar assim entretido" ("O Avô e O Neto", Fernando Pessoa).

Minutos antes do show, Greg Dulli - metade da dupla Gutter Twins - atravessa a pista e desaparece atrás das cortinas do palco. Não vejo a outra metade. Talvez esteja no backstage, tratando a voz com nicotina. Não há outro jeito senão protelar a execução do plano.
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos./ Sigo o fumo como a uma rota própria, (...)/ Depois deito-me para trás na cadeira/ E continuo fumando./ Enquanto o destino mo conceder, continuarei fumando. ("Tabacaria", Álvaro de Campos-Fernando Pessoa)

E então começa. Mark Lanegan surge no palco. Olhando para baixo. Anda até o microfone, não olha para o menino e seu avô na primeira fila, não vê ninguém. Enquanto o despachado Greg Dulli cumprimenta os fãs e brinca com a platéia, Lanegan, sério e calado, segura o suporte do microfone, fecha os olhos, enruga o rosto incomodado com os flashes fotográficos. Canta alheio ao que ocorre no local, trancado em um mundinho particular no qual visitantes não são bem-vindos.
É, não vai ser fácil.
Não me peguem no braço!/ Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho./ Já disse que sou só sozinho! Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!/ (...) Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo.../E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! ("Lisbon Revisited (1923)", Álvaro de Campos-Fernando Pessoa).

O show avança. Intervalo antes do bis. Acho que não vai funcionar. Terminado o show, ele vai evaporar. Introvertido demais para socializar com os fãs. Os dois voltam para o palco, primeiros acordes da música. Então vai ter que ser agora. Distância de alguns passos. O segurança está do outro lado. Dá tempo. Mas....de olhos fechados...como ele vai me ver? Bom....pensando bem...ele não precisa me ver. Basta sentir...
Foi um momento/ O em que pousaste/ Sobre o meu braço,/ Num movimento/ Mais de cansaço/ Que pensamento,/ A tua mão/ E a retiraste./ Senti ou não? ("Foi um Momento", Fernando Pessoa).

Ele abre os olhos apressado, despertado pelo cutucão. Não entende o que eu exatamente faço na frente dele, até ver meu braço esticado, apontando um livro na sua direção. Compreende então, e aceita o presente. De volta ao meu lugar na platéia, vejo o esforço que ele faz para encontrar um feixe de luz que permita a leitura da capa. A expressão de surpresa, quando descobre autor e conteúdo, chega a ser engraçada. E duvidosa. Putz, devo ter exagerado. Ele não gostou. Espera....está olhando fixamente para o livro. E...sorrindo! Ele sabe sorrir! Olha para mim. "Thank you" é o agradecimento que eu vejo mas não ouço, abafado por guitarra e bateria. Ah, ele gostou! Alívio!
Greg Dulli se aproxima, coloca uma das mãos sobre o ombro dele. Aponta para mim com a cabeça. Impossível escutar o que diz. Mas Mark Lanegan ri, olhos baixos, envergonhado. Encolhe os ombros e abre os braços, como quem diz: "pois é, eu que ganhei. Sinto muito se ela não te deu nada". Meninos....todos iguais mesmo.
Fim da apresentação. Greg Dulli se encarrega das despedidas. Lanegan não cumprimenta ou agradece os presentes. Limita-se a apanhar o livro que ele havia acomodado ao seu lado. Caminha em direção aos fundos do palco. Antes de ultrapassar a cortina, me procura com os olhos. Quando acha, acena com o livro, agradecendo mais uma vez. Um fofo.
As portuguesinhas que assistiam ao show, perto de mim, não me deixam ir embora sem explicações: "O que você fez pra ele ter ficado assim feliz!?"
Meia-noite e meia. Tomo uma Imperial enquanto vejo o roadie, sósia do ator Alan Rickman, enrolando cabos e guardando os instrumentos. Depois, hora de ir embora. Feliz da vida.
Desço acelerada a rua do Limoeiro, pronta para pegar o último metrô na estação Baixo-Chiado. Sopra uma brisa na noite quente, Lisboa está linda como nunca. E eu não consigo parar de sorrir...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,/ Sozinha e contente como o dia de hoje...("Chuva Oblíqua", Fernando Pessoa).
Assim a brisa/ Nos ramos diz/ Sem o saber/ Uma imprecisa coisa feliz ("Foi um Momento", Fernando Pessoa).

Que vida engraçada. Mark Lanegan é meu ídolo. Não tenho fotos com ele, não tenho seu autógrafo. Ele que tem o meu. Na forma de dedicatória escrita na primeira página de um livro de poemas. Fernando Pessoa traduzido para o inglês. Na minha estante, em casa, empilham-se os CDs do meu ídolo. Na estante dele, um livro meu. E na minha memória, um sorriso doce e raro. Que partiu de alguém que um dia decidiu que a vida não oferece muitas boas razões para sorrir. Uma honra que, no meu caso, tenha sido aberta uma exceção.

Valeu a pena. E a alma não foi pequena.

Ah, bom!


Página de jornal português que cobria vitrine em Lisboa.

E no metrô lusitano...

Eu: "-Por favor, quero comprar dez bilhetes."

Funcionário: "-Dez? Por que então você não leva de vez o cartão? É só cinqüenta centavos mais caro."

Eu: "-Ah tá....mas....é a mesma coisa?"

Funcionário: "-Não, né! É um cartão!"

Friday, September 12, 2008

Em Lisboa

Mark Lanegan é um fofo. Quando eu voltar de viagem, no fim do mês, conto o que rolou no show luso do Gutter Twins...
Aguardem.

Monday, August 25, 2008

Piada Interna

Para quem gosta de Mark Lanegan e Greg Dulli, história engraçada contada em entrevista para o The Sun:


http://www.thesun.co.uk/sol/homepage/showbiz/sftw/article858871.ece

Tem junto o áudio com o Lanegan rindo, coisa rara!


Conclusões:


1) Meninos passam dos 40 anos, mas continuam bobos...(mas no fundo, nós meninas gostamos dessa bobeira).
2) O "Garagem" faz muita falta. Típica história garagística, que eles contariam se estivessem no programa. Deu saudades.
3) Uma das melhores coisas da vida é viajar com amigos...(né, Anna!!!)

Saturday, August 23, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXIII



"David", de Andrea Del Verrocchio, e Gary Lightbody, vocalista do Snow Patrol.

Tuesday, August 19, 2008

I Know It's Over





"This is our last goodbye/ I hate to feel the love between us die/ But it's over/ Just hear this and then I'll go." ("Last Goodbye", Jeff Buckley)


"Close my eyes/ Feel me now/ I don't know how you could not love me now." ("Sometimes", My Bloody Valentine).


Itália, novembro de 1.912. "O melhor que você pode fazer é me odiar. Detesto assinar isso". As duas frases - geladas - encerram a carta endereçada a Louie Burrows. D.H. Lawrence, escritor inglês e autor de "O Amante de Lady Chatterley", anunciava à noiva que iria se casar. Com outra. Fim de romance, sem anestesia. Lawrence estava com vinte e sete anos de idade. Se vivesse no século XXI, teria mandado um e-mail. Provavelmente redigido ao som de "I´m your villain", da banda escocesa Franz Ferdinand, tocando no I-Pod..."I know what I am/ I'm your villain/ I don't give a damn if/ I'm your villain".

A jornalista Elisabeth Orsini teve uma idéia luminosa: "Cartas do Coração - Uma Antologia do Amor" é uma compilação. Beethoven para a amada imortal, Dostoievsky a Anna, Napoleão para Josefina. Poetas, músicos, chefes de Estado, pintores, figuras históricas que em algum momento de suas vidas escancararam sentimentos através de tinta e papel. D. Pedro I, apaixonado, assina com apelido ridículo sua cartinha para a Marquesa de Santos: Fogo Foguinho. O compositor Torquato Neto (1.944-1.972) pede a Ana Duarte que telefone entre 4 e 10 horas (!), porque o papel acabou. Mas teve tempo de enviar, no finzinho, "uns 90 beijos enormes". Mas nem tudo é arrebatamento e felicidade no livro organizado por Beth Orsini. "Difícil Adeus" é o título do último capítulo. Desfile de cartas que têm em comum a delicada, penosa ou no mínimo desconfortável missão de comunicar à até então cara-metade...que a fila andará. E também o outro lado: mensagens aflitas e suplicantes dos desprezados que tentam reverter, ou evitar, o que muitas vezes é definitivo. O temido pé-na-bunda.

Ana Bolena, por exemplo, não quis salvar apenas seu casamento quando, encarcerada, escreveu ao rei Henrique VIII. Sabia que o marido pensava em matá-la, acusando-a de adultério, incesto e feitiçaria! "Senhor, vosso desprezo e minha prisão parecem-me coisas tão estranhas, que não sei o que escrever ou que desculpas apresentar." A carta é humilde, o tom é de humilhação. Na despedida, uma última tentativa de comoção: "De minha triste prisão na Torre, aos seis de maio. Vossa esposa muito leal e sempre fiel, Ana Bolena". Inútil. Ana Bolena foi decapitada em 1.536. Abandonada. Personagem com história que se encaixa perfeitamente à letra triste de "Woman Left Lonely", da meiga Chan Marshall, a Cat Power: "A woman left lonely/ she’s the victim of her man/ yes she is./ When he can’t keep up his own way/ good Lord/ She’s got to do the best that she can, yeah!/ A woman left lonely/ Lord, that lonely girl/ Lord, Lord, Lord!"

Diante do fim, há quem reaja com amargura. "Estou sozinho. Mil vezes não te tivesse conhecido. (...). O que me causa horror é o teu desapreço por mim, homem de pensamento, a tua desatenção pelo espírito que sou". Frases fortes, não? Ah, se o responsável por elas - o poeta Augusto Frederico Schmidt - não tivesse morrido três anos antes do nascimento de Thom Yorke, se seu caso de (des)amor com Yêdda Schimdt rolasse nos dias atuais...poderia pegar emprestada do Radiohead essa agulhada no coração, em forma de verso que Thom pronuncia no meio da sublime canção "All I need": "I'm all the days/that you choose to ignore". Yêdda mudaria de idéia, com certeza.
Chantagem emocional. Outro recurso eleito pelo angustiado que sente o amor de sua vida escorregando por seus dedos (situação que Auguste Rodin modelou, também com os dedos, criando "Fugit Amor" - escultura tocante fotografada acima). E lá vai Jarvis Cocker, da banda Pulp, em "Don't you want me anymore", traduzindo em palavras mais um momento loser: "And now the whole damn town has come around to laugh at me/ Oh yeah Oh they can stare for evermore/ you do not care for me/ Oh no Oh they can stare now for a hundred thousand years/ Don't you want me anymore?". Sem ao menos imaginar, Vladimir Maiakovski antecipou em algumas décadas a técnica de Cocker para injetar remorsos e pena no coração de uma desalmada (no caso de Maiakovski, Lili Brik): "Estou sentado num café e choro. As garçonetes riem-se de mim. Dá medo pensar que toda minha vida futura será assim". Eis as curiosas semelhanças entre um poeta russo revolucionário e um cantor nerd de brit pop!
E se, diante da perda, o amor de um homem por uma moça pode se misturar ao desespero...o amor de um moço...por outro moço percorre o mesmo calvário. "Se eu não mais devo revê-lo, entrarei para a marinha ou exército. Oh, volte, eu choro a cada momento. Diga-me que vá ao seu encontro, eu irei, diga, telegrafe". Tentativa exagerada de Arthur Rimbaud para convencer Paul Verlaine a largar a esposa. "Don't punish me/For wanting your love inside of me/Don't punish me/For wanting your love inside of me", canta o andrógeno Antony, do Antony and the Johnsons.
Jorge Luis Borges, em sua carta a uma Estela Canto inclinada a romper o romance, pede com timidez: "Estela, Estela, quero estar contigo, quero estar silenciosamente contigo." Paul Banks, vocalista do Interpol, é bem mais explícito ao chamar por outra Stella, na maravilhosa "Stella was a diver and she’s always down": Stella/ Stella/ Oh Stella!/ Stella I love you/ Stella I love you/ Stella I love you!"
Em 1979, o inglês Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, redigiu um lamento, um esforço para explicar um angustiante sentimento de finitude. Não propriamente em forma de carta, mas de canção. A avassaladora "Love Will Tear Us Apart". Seu casamento com Deborah Curtis estava esmorecendo, havia uma amante. "When the routine bites hard/ And ambitions are low/ And the resentment rides high/ But emotions wont grow/ And were changing our ways/ Taking different roads/ Then love, love will tear us apart again". Curtis sentia culpa, questionava a causa de seus erros, o porquê da relação ter se tornado opaca, vazia. A pergunta crucial: "Is it something so good/ Just can't function no more?". Sem conseguir resposta, o sofrimento do epilético e depressivo Ian Curtis só terminou quando encontrou uma medida extrema, o suicídio. Talvez a resposta pela qual Curtis tanto ansiasse pudesse ter sido dada por um talento tão genial quanto o do músico. Fernando Pessoa não compunha. Mas escreveu os poemas mais arrebatadores da língua portuguesa. E também uma carta, em 1920, para Ophelia Queiroz, a Ophelinha. Mensagem calma, respeitosa, delicada e carinhosa para justificar a razão natural de um fim. Vale a pena a transcrição de um trecho:
"Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; alívio porque, na verdade, a única solução é essa - o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?...
[...] O tempo, que envelhece a face e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que não são mais que partes da vida?..."
Fernando Pessoa faleceu em 1935. Ophelinha se casou. E aceitou o fim.

Tuesday, August 05, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXII



Estátua de Strossmeyer, de Ivan Meštrović (1926), e o cantor Supla.

Tuesday, July 01, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXXI



"Tentação de Santo Antonio", 1896, de Odilon Redon, e Zack de la Rocha, vocalista do Rage Against The Machine.

Tuesday, June 24, 2008

A Revista De Rock Mais Bacana Do Mundo



Se Grace, filha do baixista Duff McKagan, da banda Guns'N Roses, está viva....talvez tenha muito a agradecer a...Mark Lanegan. Quando Grace nasceu, o riacho existente nos fundos da casa de Mckagan passou a ser um risco para uma criança que logo começaria a andar. Foi Lanegan quem notou o perigo e alertou o amigo, que não pareceu muito preocupado. "Você não está entendendo. Você vai ter que levantar uma cerca". O seco Lanegan deu a última palavra e atualmente uma cerca adorna o quintal de Duff.

Se eu hoje sei dessa - e de algumas mais - historinhas envolvendo meu carrancudo ídolo e outros músicos bacanas, com certeza tenho muito a agradecer a....Eric T. Miller. Eric T. Miller, trinta e seis anos, magrelo, óculos no rosto alongado, é a personificação de Wally, aquele personagem do livrinho infantil "Onde está Wally?". Mora na Philadelphia, EUA, mantém um pouco visitado blog sem-graça onde lista prêmios cinematográficos, e pode ser encontrado no Myspace. Em sua página no site de relacionamentos, a gente vê poucos recados. E logo percebe que os principais amigos do esquisito Eric são: seu terrier Higgins (cão dotado de pouca beleza), políticos do Partido Democrata (!) e...a Magnet Magazine.
Eric Miller edita, publica e distribui a revista Magnet, sobre música independente, desde 1993. Eric é o dono da Magnet, que não é vinculada a corporação alguma. Na página da Magnet no Myspace, cerca de 3.200 amigos (número modesto, dez vezes menor do que o mostrado na página da revista Rolling Stone). Eu, mulher dotada de pouca velocidade, descobri a Magnet...apenas dias atrás. Ao acaso, entrei no site da revista. Que é...O Site Mais Feio Do Mundo. Assim mesmo, com maiúsculas. Site tosco, desalinhado, em azul e caramelo, as cores da revista (http://www.magnetmagazine.com/). Poucos e desorganizados links, não há campo de busca ou pesquisas. Nada de propagandas ("We don't believe in banner ads; we just believe in us", responde Eric aos eventuais interessados em anunciar no seu site).
Pois bem, se a minguada forma faz chorar, o conteúdo do site é um banquete de informações para qualquer ser que ama música. Entrevistas longas com gente que costuma, em outras publicações, a falar pouco ou a falar de má-vontade. Ou as duas coisas. Como Mark Lanegan. Lanegan foi entrevistado por jornalista da Magnet (que emprega pouca gente) há três ou quatro anos (imagino eu, pois o site não faz questão nenhuma de mencionar data ou edição). Lanegan estava vivendo em Antuérpia, na Bélgica (a cidade mais linda do mundo, posso dizer) e se deu ao trabalho de atender o telefonema do sujeito, reclamando do cansaço após subir só quatro lances de escada carregando as compras da mercearia (Lanegan é fumante convicto). A conversa é bem-humorada, as perguntas são inteligentes. Lanegan tanto responde como pergunta ("Onde você mora em Pittsburgh?""Acho que já fui pegar drogas lá."), conta casos hilários (o repórter pergunta se o cantor está sendo hostilizado na cidade por ser americano. Lanegan: "Todo mundo aqui na rua usa turbante. Então digo que vim do Território Yukon, no Canadá!").
O brilho da Magnet está justamente aí: as entrevistas são geniais. Não somente o fechado Lanegan demonstra disposição em papear com gente da pequena revista que, muitas vezes, é até atrevida: ao entrevistar Thom Yorke, em setembro de 2003, Matthew Fritch comenta que, quando ouviu "Creep" pela primeira vez, gostou, mas achou o nome da banda - Radiohead - imbecil. Thom Yorke ri e concorda. Adiante na entrevista, Fritch consegue resposta sensacional do líder da banda de nome imbecil, ao pedir sua opinião sobre fãs de rock que torcem o nariz para música eletrônica: "Maybe there’s just not been enough death in electronic music for people. If there were more suicides and Lester Bangs articles over the years and general hysteria and cult of personality surrounding the people who did electronic music, I think people would find it difficult to resist the temptation to get into it. But the fact is, one of the greatest things about good electronic music is it’s got none of that shit".
A irreverência - ou "folga" mesmo - dos poucos repórteres da Magnet seria impensável em revistas mais "sérias", estabelecidas e com nome a zelar. O repórter Jonathan Valania encontrou-se com Jon Spencer antes do show de sua banda, Jon Spencer Blues Explosion. Sua missão seria entrevistá-lo para a revista. Acompanhou a passagem de som, jantou. Pouco antes da banda subir no palco, Jonathan se liga de que....se esqueceu da entrevista! E que o tempo é curto. Decide então fazer apenas perguntas cretinas. Quando Valania descobre que Carl Crack, da banda atari Atari Teenage Riot, está no local e não compreende Inglês muito bem....bom, vai lá no site da Magnet e leia.
Você sabia que o álbum "Daydream Nation", do Sonic Youth, foi honrosamente registrado nos arquivos da Biblioteca do Congresso Americano (!?). Eu não (fui conferir no site da biblioteca e está lá mesmo!). Thurston Moore fala de sua surpresa com a "anotação" em outra boa entrevista da Magnet.
Bom, não conheço a trajetória da Magnet. Mas tenho impressão de que editor Eric Miller - que começou sua revista aos 23 anos - tem muita moral entre os músicos e atraiu muita simpatia por tocar uma publicação honesta que não tem rabo preso com ninguém. Respeito e simpatia dispensados não somente por músicos pequenos e praticamente desconhecidos: Eddie Vedder, da mainstream banda Pearl Jam, agradeceu a Magnet por ter dado a ele a oportunidade de entrevistar as bem alternativas meninas da banda Sleater-Kinney. Na entrevista, Vedder e as moças conversaram sobre a importância de bandas como Sonic Youth e Fugazi. Na fotografia acima, Eddie Vedder posa para a Magnet, entre sua vassoura e seu pet.
Aliás....as fotografias redimem o site da Magnet. Lindas. Há até o registro de uma rara aparição: os rapazes do Daft Punk, sem os capacetes (ao ver a foto, entendi a necessidade do acessório...). Aqui no post, ao lado de Vedder, Mark Linkous, do Sparklehorse (também entrevistado pela revista, depois de quase ter as pernas amputadas: "In a way, it was the best time of my life, just being in a wheelchair and being on morphine all the time.”).
Dá para assinar a Magnet, na boa. No site, há um link - pavoroso, diga-se - que explica os planos de pagamento e remete a outro link para a encomenda. Embora a configuração da página cause péssima impressão (lembra aquelas mensagens passadas por emails piratas, que tentam induzir você a abrir um link espúrio que vai copiar seus dados), existe segurança: Eric Miller já mandou mensagem esclarecendo que receberei minhas doze edições. A assinatura bianual (a revista sai de dois em dois meses) custa setenta e cinco dólares. Ou seja, dez reais a edição. Barata e de qualidade! E vem CD junto! Pronto, já fiz o comercial, hehe.
Por fim, se você, além de interessado em música, também não resiste a uma fofoquinha envolvendo seu artista preferido....a Magnet é mesmo a sua revista! Johnny Marr, que depois dos Smiths montou o Electronic com Bernard Sumner, entrega sem dó: o ator que interpretou Bernard no filme "24 Hours Party People", de Michael Winterbottom, era preguiçoso e não pesquisou direito: Sumner descobriu a água oxigenada bem depois da fase Joy Division!
E a Magnet vai mais fundo: para meu desgosto, o próprio Mark Lanegan informa, em entrevista junto com Josh Homme, que pinta o cabelo para esconder o grisalho! Eu desconfiava. Graças a Eric T. Miller, não posso mais viver na ignorância. Um exemplo cruel de liberdade de imprensa sendo usada para o fazer o Mal, hehe!

Pouco entendo de música. Não sou jornalista, não tenho banda, nada. Sou uma simples promotora (de justiça, não de eventos) que há poucos dias descobriu Magnet, a revista do meio nerd, muito incrível Eric T. Miller. A Revista De Rock Mais Bacana do Mundo.
Assim mesmo, com maiúsculas.

Monday, June 16, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXX



"Paul Lemoyne"(1810), de Jean Auguste Dominique Ingres, e Elvis.

Monday, June 09, 2008

O Direito Penal Brasuca e as Cinzas de Kurt Cobain


Quem diria. Kurt Cobain saiu do armário. Depois de morto. Texto copiado do site de notícias G1:

"Courtney Love, viúva do cantor do Nirvana Kurt Cobain, afirmou que as cinzas de seu marido foram roubadas de sua casa em Los Angeles. As cinzas estavam em uma bolsa em formato de urso, guardada em um guarda-roupa.

Ela disse que tem impulsos suicidas em razão do ocorrido. 'Não posso acreditar que alguém poderia levar as cinzas de Kurt. Eu acho isso repulsivo e agora mesmo me sinto suicida. Se não consegui-las de volta, não sei o que farei.' A informação é do tablóide "News of the World".

A maioria das cinzas de Kurt Cobain, que se suicidou em 1994, aos 27 anos, foi espalhada em um templo budista de Nova York.

'Eu costumava levá-las para todos os lugares, assim eu podia sentir que Kurt ainda estava comigo. Agora parece que eu o perdi novamente', disse Love."

Pois é. Passaram a mão no vocalista do Nirvana. Ou melhor, em parte daquilo que um dia foi o vocalista do Nirvana. Li a reportagem e....póim, logo comecei a pensar no aspecto jurídico do acontecimento. Bom, a pensar sob o ponto de vista do direito penal brasileiro, pois não conheço a lei californiana. Rolou um crime? Se sim, qual?

O artigo jornalístico menciona roubo. Tá errado. O roubo é sempre cometido com violência ou através de uma ameaça grave (como, por exemplo, com exibição de arma). Ora, ninguém enfiou um três-oitão no focinho de Courtney Love e saiu em disparada com Cobain a tiracolo, não é mesmo? O meliante agiu na clandestinidade.

Furto então? No furto, sim, há subtração sem violência ou ameaça grave. Mas aí surge um probleminha. O artigo 155 do Código Penal define o que é furtar: "subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel". "Coisa", sacou? O que significa, juridicamente, a palavra "coisa"? Guilherme de Souza Nucci, autor do "Código Penal Comentado" publicado pela Editora Revista dos Tribunais, explica lá na página 515, da 4a. edição: "coisa é tudo aquilo que existe, podendo tratar-se de objetos inanimados ou de semoventes. No contexto dos delitos contra o patrimônio (conjunto de bens suscetíveis de apreciação econômica), cremos ser imprescindível que a coisa tenha, para seu dono ou possuidor, algum valor econômico". Po! Data venia....as cinzas não são "coisa", não. Vá lá que a bolsinha que abrigava Kurt seja coisa (coisa inanimada). Aí, sim. Não dá pra negar que a bolsa, que tem valor econômico, possa ser furtada. Se Kurt fosse um jaboti (jabuti?) de estimação, vivo, OK. Furto de coisa semovente. Mas esqueçam a bolsa e o jabuti (jaboti?), pensem só nas cinzas. Furto é crime cometido contra o patrimônio de alguém (a lei fala em "coisa alheia"). Cinzas não são bem econômico. Se fossem, a quem pertenceriam? À viúva? A Frances Bean, filha adolescente de Kurt? Aos pais dele? Se cinzas fossem consideradas coisas, teriam que ser sempre objeto de inventário, para partilha entre os herdeiros. As de Kurt Cobain ou as suas, caso seu desejo póstumo seja virar churrasco. Se cinzas fossem "coisa", as de Kurt e as suas poderiam até ser leiloadas no e-bay! A preços bem diferenciados, óbvio (concorda comigo, ilustre pé-rapado desconhecido?). Absurdo, certo? Bem, concluindo: cinzas não são "coisa". Nada de furto.

Passemos então aos chamados "crimes contra o respeito aos mortos". Diz lá o Código Penal, no artigo 211, que é crime "destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele". Nucci cita a definição do penalista alemão Franz Von Liszt para esclarecer, na página 663, o que é "cadáver": é "o corpo humano inanimado, enquanto a conexão de suas partes não cessou de todo". Oh. Cinzas...grãos. Soltinhos e misturadinhos! Logo, cinzas não são cadáver. Não foi praticado o crime previsto no artigo 211. E o do artigo 210, que tal? "Violar ou profanar sepultura ou urna funerária". Ai. Restinhos de Cobain jaziam no interior de uma bolsa rosa de ursinho. Uma bol-sa ro-sa de ur-si-nho. Sepultura? Urna? Sem chance (mudando um pouco de assunto, mas nem tanto: um professor de Direito Processual Civil do Largo São Francisco costumava falar: "quero que minhas cinzas sejam jogadas no canteirinho de plantas do Shopping Higienópolis. Só assim vou ter certeza de que minha mulher vai me visitar toda semana".). Sobrou esse crime: artigo 212. "Vilipendiar cadáver ou suas cinzas". Vilipendiar significa desprezar, ultrajar. Humm. Courtney Love é uma jararaca, todo mundo sabe. O cidadão, ou cidadã, que surrupiou Kurt em pó com certeza não cometeu um vilipêndio. Ao contrário. Prestou ao morto uma homenagem, resgatando-o! Fora do guarda-roupa, fora da bolsa de ursinho! Criminosa é a viúva do Mal.

Sensacional! O ser que levou as cinzas de um dos caras mais importantes da História do Rock não cometeu crime nenhum, ehehe! (segundo a lei brasileira, como já disse. Ou seja, imaginando, por hipótese, que o desaparecimento das cinzas tivesse rolado no Brasil....não haveria punição).
Mas aí surge outra pergunta. Quem foi o espertinho? Sim, alguém que sabia do conteúdo da bolsa de ursinho. Parente, amigo da família. O mordomo? Ou será que Frances Bean teve coragem de trocar cem gramas de pai por cem gramas de farinha, pedra ou chá (cocaína, crack e maconha. Em termos meigos).

Espera aí.

Tá na cara! Como a polícia americana ainda não o procurou?

Keith Richards, onde você estava na hora do sumiço?!

Thursday, June 05, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXIX



"Les Intrus", de Ferdinand Pire, e a cantora Amy Winehouse.
P.S. Eu não gosto das músicas dela. Chatas demais. Mas sinto pena da moça. Torço sinceramente para que ela se recupere e tente outra profissão.

Wednesday, June 04, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXVIII




"Femme Au Chat", de Micao Kono, e o cantor Boy George.



Saturday, May 31, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXVII



Estátua do imperador Júlio César e....Mark Lanegan.
É, de novo.

Tuesday, May 27, 2008

Nestor Pestana belga


Rue de la Putterie, Bruxelas.


Em francês e holandês, para não deixar dúvidas.

Sunday, May 25, 2008

Vengeance is Mine, Inc.




Em Londres, a família de uma parteira é ameaçada de morte por membros da máfia russa. Dentro de uma sauna, integrantes de uma gangue tchetchena tentam matar, a facadas, um capanga russo. Foram induzidos a acreditar que ele é herdeiro do homem que comanda o crime organizado russo na capital inglesa. O rival russo tem a pele tatuada como prova de lealdade a seus chefes. E mantém guardado um segredo.

Na Tchetchênia em guerra com a Rússia, um presidente separatista é assassinado por dois mísseis teleguiados atraídos pelo sinal de seu telefone celular. Ele conversava com um deputado russo e discutia a iniciativa de paz.
Também em Londres, um ex-agente secreto russo bebe chá em um hotel. Sem saber, é envenenado por elemento radioativo com capacidade para destruição semelhante à de uma bomba atômica. A vítima, exilada política e então casada com uma linda dançarina, contamina a cidade até ser internada em hospital e morrer. Mas deixa uma carta revelando o nome do mandante de seu próprio homicídio. O presidente da Rússia.

Duas tramas. Mirabolantes. Encenadas por cidadãos russos que levaram o dever de fidelidade às últimas conseqüências. Repletas de ameaças veladas, conspirações, disputas pelo poder. A vingança materializada na lâmina que abre uma garganta. Ou no veneno que devasta as células de um corpo. Duas tramas que percorrem o mesmo tema: crime organizado russo. Mas que diferem em suas origens. A primeira, ficção, foi registrada por David Cronenberg: "Eastern Promises" ("Senhores do Crime"), filme que tem como personagem central um mercenário - interpretado de forma magistral por Viggo Mortensen (foto à direita) - disposto a matar e a marcar a própria pele para provar sua lealdade à máfia russa em Londres. A segunda foi registrada pelos jornais nos últimos anos (incluindo a sensacional reportagem transmitida pela TV Globo http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM687208-7823-LIVRO+ACUSA+O+PRESIDENTE+DA+RUSSIA+DE+ASSASSINATO,00.html ): a vida real do ex-espião russo Alexander Litvinenko, que se dispôs a morrer, e a colocar parentes e amigos sob risco, para provar ao mundo que a alta cúpula do governo russo era responsável por atos de terrorismo.
Alexander Litvinenko, apelidado Sacha, ingressou no serviço secreto antes do colapso da União Soviética em 1991. Era a KGB, central da inteligência soviética. Sacha organizava arquivos secretos sobre marginais, estudava seus assuntos pessoais, redes, contatos com empresários e políticos. Trabalhava nos bastidores, desvendando planos de corrupção através de escutas telefônicas clandestinas, recrutando e comandando agentes infiltrados em gangues.

Fim da União Soviética. Boris Ieltsin assume o comando da Federação Russa. Não mais KGB; a inteligência russa é agora concentrada no FSB. Litvinenko continua a servir sua pátria, que então enfrenta uma nova era: a da liberdade. Liberdade de circulação, liberdade de imprensa, liberdade de mercado. Com as privatizações, empresários enriquecem. Um deles é o poderoso milionário Boris Berezovski, amigo de Sacha. Berezovski gozava de muita influência no governo Ieltsin. Graças a ele, um antigo oficial da KGB é nomeado chefe do FSB: um homem de origem humilde, filho de operários, que viveu infância pobre e adolescência rebelde, marcada por brigas de rua, ameaça escolar, más companhias. Um professor conseguiu afastá-lo da delinqüência, ensinando-lhe artes marciais. O judô deu disciplina, concentração e habilidade tática ao rapaz. Segundo o treinador, o jovem lutava como um leopardo decidido a vencer a qualquer custo. Continuou a praticar o esporte quando começou a aprender o ofício de espião. Vladímir Vladímirovitch Putin era seu nome (foto à esquerda).
Trabalhando no FSB, Sacha descobre um esquema de corrupção e um plano para matar Berezovski. Vai até Putin e delata a conspiração. É tratado com extrema frieza. Putin o considera desleal aos companheiros de serviço. Após o encontro, Sacha comenta com Marina, sua esposa: "Conheço um homem pelo aperto de mão. O dele era frio e pegajoso. Eu podia ver em seus olhos que ele me odiava". Litvinenko recorre à televisão. Ao lado de quatro agentes mascarados, escancara publicamente as ilegalidades cometidas por gente do FSB. Cai em desgraça com Putin, é preso.
Terminando o segundo mandato presidencial, Boris Ieltsin necessita de um sucessor. O homem escolhido para concorrer às eleições é Vladimir Putin. Em 1999, áreas residenciais de Moscou são alvos de bombas. Os tchetchenos separatistas são apontados pelo governo como sendo os responsáveis. Investigações que apuram um possível envolvimento do próprio FSB são abafadas. E Putin torna-se presidente da Rússia.
Sacha é solto, mas sabe que tem a inimizade do homem mais poderoso do país. Litvinenko, esposa e filho fogem para a Turquia. Ajudado por um cientista russo trabalhando para o empresariado americano, tenta negociar asilo político junto à embaixada dos EUA em Ancara. É descoberto pelos russos, que enviam espião para vigiar o ex-agente no hotel em que se hospedou (o capanga chama a atenção por se esconder atrás de um jornal aberto - clichê cinematográfico que Sacha logo identifica). Os russos tentam impedir que Sacha saia da Turquia, mas fracassam. A familia fugitiva consegue embarcar em avião e aterrissar na Inglaterra, onde é acolhida e sente-se segura. Ilusão.
Em Londres, Litvinenko descobre, da forma mais dolorosa e inimaginável, que continuava sob os olhares do Kremlin. Em novembro de 2006, Sacha se encontra com Andrei Lugovoi, ex-chefe de segurança de Boris Berezovski. Não desconfia que a missão de Lugovoi é assassiná-lo. Não nota quando, conversando com seu compatriota no bar de um hotel, ingere veneno que havia sido despejado em um bule de chá. Depois do encontro, o dissidente russo começa a sentir-se mal. Vomitando, é internado. Os médicos não conseguem identificar a causa. Inicialmente, suspeitam da ação de bactérias. Quando Litvinenko começa a perder o cabelo, é levantada a hipótese de envenenamento. Inicia-se uma corrida contra o relógio: identificar a substância tóxica e medicar Sacha a tempo de salvá-lo. Mas Litvinenko sabe que já está morto: mesmo debilitado e tomado por intensa dor causada pelo veneno que dizimava seus tecidos, atende a imprensa e a Scotland Yard, fornecendo à polícia todas as valiosas informações que eventualmente pudessem incriminar o executor de seu homicídio. E estabelecer a ligação com o homem que teria dado a ordem de extermínio. Segundo Sacha, Putin.
Polônio-210 foi o elemento radioativo que em questão de dias matou Alexander Litvinenko. Sua produção ocorre em laboratórios russos controlados pelo governo. É caro e inacessível para assassinos comuns. E nunca havia sido usado para exterminar um ser humano. Embora inofensivo para quem o manipula, uma vez engolido ou inalado não dá à vítima a mínima chance de sobrevivência. Um grama é suficiente para matar meio milhão de pessoas. Médicos afirmaram que Litvinenko recebeu uma dose equivalente a estar no epicentro da catástrofe de Tchernobil...por duas vezes. Os assassinos de Sacha apenas não contavam que o organismo do ex-agente fosse resistir tanto, a ponto de permitir que médicos e peritos estudassem o caso e identificassem o veneno. Em entrevista, o pai do ex-agente disse que o filho havia sido morto por uma "minúscula bomba nuclear". Atualmente, a viúva Marina Litvinenko luta para que todos os implicados na morte de seu marido sejam apontados e punidos. Putin nega veementemente o envolvimento no crime.

"Vengeance is Mine, Inc." é nome de um dos contos escritos pelo britânico Roald Dahl (1916-1990). Comparsas abrem uma empresa que oferece a seus clientes serviços de vingança. Trama sinistra publicada na coletânea "More Tales of The Unexpected".
A trama sinistra que levou à morte de Litvinenko está no livro "Morte de um Dissidente", de Alex Goldfarb e Marina Litvinenko. História real e surpreendente, muito além da força criativa de roteiristas cinematográficos e escritores de ficção.

Friday, May 09, 2008

Black Postcards: a Rock & Roll Romance





"Rough Trade landed us a run of shows supporting the Sundays in the U.K. The Sundays was a pop band from Bristol, whose debut album was at number four on the charts - the real charts, not the fake independent ones."

Página 81. É na página 81 que por acaso abro o livro escrito por Dean Wareham, exposto na livraria de língua inglesa localizada em uma rua movimentada de Bruxelas. Leio o trecho que copiei logo acima....e não é preciso mais nada para que uns bons - e muitíssimo bem gastos - euros migrem da minha bolsa em direção à caixa registradora.
"Black Postcards: a Rock & Roll Romance" é a recém-lançada autobiografia de Dean Wareham, músico nascido na Nova Zelândia em 1963 (e ainda vivinho da Silva). Dean é compositor, guitarrista e vocalista. Conhecido no meio alternativo como ex-membro de duas grandes bandas, já falecidas: Galaxie 500 e Luna. O tema central do livro - uma delícia! - é justamente esse: Wareham conta, de maneira divertida e sarcástica, que ser "conhecido" no meio alternativo na maioria das vezes significa ser ignorado pela massa de ouvintes, consumidores de música. E que ser integrante de uma "grande banda" raramente é sinônimo de ser integrante de uma "banda grande".
Depois de passar a infância, início da adolescência em seu país natal e Austrália, Dean mudou-se para Nova Yorque em 1977. É lá que Wareham toma contato com o punk e pós-punk. Foi testemunha presencial de Ramones, Blondie, Clash, Gang of Four se apresentando nos clubes mais bacanas da cidade. Dean cursou a Universidade de Harvard, onde também estudaram Damon Krukowski e Naomi Yang. Em 1986, os três se uniram para criar o Galaxie 500, banda de canções suaves e melancólicas. Dean na guitarra, Naomi no baixo, bateria para Damon. Bom, eles não sabiam tocar. Mas...who cares? Dean, não. "Mary Harron wrote that rock and roll 'is the only form of music wich can actually be done better by people who can't play their instruments than people who can'".

Gravando demos, tocando em pequenos clubes e assinando contrato com uma minúscula gravadora, o Galaxie 500 tentava conquistar seu espaço. Vieram então boas críticas publicadas como pequenas notas em conceituadas revistas inglesas (a banda sempre foi mais querida no Reino Unido do que nos EUA), a admiração externada por Sonic Youth (outra banda indie, mas já estabelecida), o contrato com nova gravadora, três discos lançados, turnês...e só. O Galaxie 500 nunca estourou. Sem um pingo de amargura ou frustração, Dean narra diversas situações embaraçosas ou divertidas, experimentadas por alguém que jamais atingiu status de rock star a ponto de destruir quartos de hotéis, fugir de fotógrafos ou compor em estúdios guarnecidos com piscina e quadra de tênis. Um dia, representante da gravadora Geffen marcou encontro com Dean e o casal Damon/Naomi, aparentemente interessado no som do trio. Faltou ao compromisso, sem maiores explicações. Wareham depois descobriu que o foco de interesse do empresário havia mudado: preferiu contratar outro trio. Nirvana.

"Você tem banda!?", espantou-se uma colega de trabalho de Dean. "Ah, então não deve ser conhecida". Atitudes de desprezo, ou até mesmo mesquinhas, também partiam de outras bandas alternativas...Wareham revela que a dupla Sundays impôs várias condições para que o Galaxie 500 não se destacasse durante shows da turnê conjunta. Entrega que nem todos os artistas e selos independentes vivem "para" a Música. Condena aqueles que vivem "de" Música (segundo Dean, no mundinho alternativo a banda Jesus and Mary Chain recebeu o apelido de...Jesus and Money Chain...). Wareham explica que é errada a idéia de que as gravadoras e selos independentes não exploram ou enganam artistas inocentes e sem grana (Dean dedica duas páginas do livro para esculachar Steve Albini, produtor de discos dos Pixies e Nirvana. Albini repreendeu a onda de músicos independentes que, nos anos 90, ousaram assinar contratos com grandes gravadoras). A ambição saudável de Wareham - que também queria um contrato com gravadora que não operasse sob eterno risco de concordata - foi uma das causas de sua saída (e do fim) do Galaxie 500. Dean se queixava que Damon e Naomi, namorados, sempre venciam quando assuntos de interesse da banda eram colocados em votação. Afinal, os votos dos dois eram idênticos (e, em um trio, a maioria). Wareham, ressentido, passou a chamá-los de "Gang of Two". Em 1991, convocou outros músicos e criou o Luna, que teve vida longa: oito discos.

Wareham é humilde e lúcido. Conta que respondia educadamente as perguntas de jornalistas que, nos anos 80, queriam saber sua opinião sobre Pixies. Nos anos 90, sobre as bandas do movimento shoegaze e grunge. E, no novo século, sobre Strokes e White Stripes. O interesse no seu próprio som geralmente era secundário. Ou então vinha de fanzines obscuros: "It was odd playing to an audience of eleven, and then being interviewed as if anyone cared what we had to say about anything. Such is the world of indie rock."
No livro, Dean dá uma verdadeira aula a respeito das dificuldades e apertos financeiros que um artista independente sofre. Gravadoras pagam aos músicos uma soma adiantada, para gravação de discos (os contratos dispõem sobre quantos álbuns devem ser lançados, em quais intervalos de tempo), vídeos, despesas com publicidade e turnês. Cabe então à banda corresponder às expectativas da contratante, vendendo CDs de modo a restituir o dinheiro investido. Além, logicamente, de arcar com o gordo desconto da porcentagem cabente à empresa sobre vendas de discos. Resumindo: a maioria dos artistas não consegue uma boa resposta do mercado. Torna-se devedora de milhares de dólares. O jeito....sair em turnês. Dormir em hotéis que são espeluncas. Tocar em buracos, para público ínfimo (Dean conta que chegou a se apresentar em um "clube" que era também uma...lavanderia!! Levando roupa para lavar, o cliente ganhava um desconto no ingresso para o show!). E torcer para vender um significativo número de camisetas depois das apresentações (descontado o valor devido ao estabelecimento no qual rolou o show e foi montada a "lojinha" do artista).
As melhores histórias do livro são aquelas que Dean descreve como sendo suas aventuras em turnês (ao final da biografia, Wareham agradece ao pai por aconselhá-lo a sempre tomar notas em suas viagens). O Luna excursionou pelos EUA a bordo de um ônibus caindo aos pedaços, que havia pertencido ao cantor country Willie Nelson. É hilário o capítulo em que Wareham conta que, como passatempo, a banda brincava de "Who would you open for" e "Who would you fuck": um dos rapazes do Luna citava o nome de um artista, alternativo ou não. Billy Corgan, por exemplo. Aí os demais comentavam se o Luna abriria um show do Smashing Pumpkins ou....bem, traduza você.
Embora ferrado e mal pago, Dean conheceu boa parte do mundo graças às turnês. Fala de seu imenso carinho pela Espanha: comida, gente bonita, muitos fãs do Luna, drogas. E não economiza comentários ácidos sobre lugares que detestou. Menciona frase genial de Mark Twain para deixar bem claro que em Cincinnati, nos EUA, a vida passa em câmera lenta: "When the end of the world comes, I want to be in Cincinnati, because it's always twenty years behind the times." O Luna esteve no Brasil, em 2001. Wareham lembra que, em São Paulo, a banda tocou ao vivo em um programa noturno da rádio Brasil 2000. Era o Garagem!!
O Luna se desfez em 2004, sem brigas. Dean estava cansado da rotina "compor em estúdio/gravar/sair em turnê". E havia Britta Phillips, a baixista. Causou desconforto na banda o caso de Dean e Britta. Dean era casado e pai de um menino pequeno quando se apaixonou pela linda Britta (parecidíssima, aliás, com outra Naomi: a não menos linda Naomi Watts, atriz de cinema). Os dois passaram a compartilhar quartos de hotéis durante as turnês. Quando a mulher de Wareham descobriu a relação, exigiu que Britta fosse dispensada da banda. Dean então narra a culpa e a angústia que suportou durante dias, dias que ele denominou como sendo os piores de sua vida. No final, escolheu Britta. Divorciou-se. Hoje, o novo casal é a dupla "Dean & Britta", que ainda segue a linha de canções "dream pop" do Luna.
"Black Postcards: A Rock & Roll Romance" é narrativa hipnótica que vai muito além das memórias de seu autor. Como bem sintetiza a resenha impressa no próprio livro, "Black Postcards is rich in rewards for anyone who has ever been in a band or just taken an interest in indie music over the past twenty years. Black Postcards is also about what it's like to pretend to be civil as you answer the same helpful question over and over again: 'Why aren't you guys more famous?'"

Friday, May 02, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXVI



Escultura de autoria desconhecida (por mim) e Wayne Kramer, guitarrista do MC5.

Tuesday, April 29, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXV



"Green Sofa", de Ron Blumberg, e Mark Lanegan.

P.S. Especialmente dedicado ao barbeiro do Lanegan, que podou essa pouca vergonha.


Wednesday, April 23, 2008

Caras Carentes e Dom João VI




"Seu guarda/Eu não sou vagabundo/Eu não sou delinqüente/Sou um cara carente/Eu dormi na praça/Pensando nela/Seu guarda/Seja meu amigo/Me bata, me prenda/Faça tudo comigo/Mas não me deixe/Ficar sem ela..." ("Dormi na Praça", Bruno & Marrone).

"I'm so lonely, I'm gonna get caught by the police for company." ("Speed On The M9", Malcolm Middleton).

- "Toma, Ana. Resolve você."
- "O que é isso?"
- "Ficha de atendimento ao público. O estagiário preencheu."
- "Por quê você tá rindo?"
- "Leia, ué!"

"Comparece nesta Promotoria de Justiça Sebastião de tal. Cinqüenta e seis anos, aposentado. Diz que quer ser preso. Conta que sua mulher pediu a separação porque não o quer mais. Afirma que está disposto a assumir a culpa por qualquer crime e a assinar qualquer confissão, pois quer ficar pelo menos três anos preso."

Sete anos como promotora de justiça. Até então gente presa pedia para ser solta. Solto pedindo para ser preso...primeira vez que vi. O que fazer? Consolar o candidato a detento? Tentar a sua reconciliação com a desalmada? Mandar um "ela não o merece!" (e se não merecesse mesmo...e merecesse coisa melhor?)? Pedir ajuda para as cartas!? Para os universitários?? O que fazer?
Dom João VI já dizia: "quando não sabemos o que fazer, o melhor a fazer é não fazer nada!". Enquanto eu cumpria à risca o conselho desse personagem histórico tão fundamental e expressivo, lembrei de...Bruno e Marrone, hehe. A dupla sertaneja que...hã..."celebrizou" a canção "Dormi na Praça", de autoria dos ilustres desconhecidos Fátima Leão e Elias Muniz (thanks pela informação, Google)! Na música, Cara Carente dorme na praça e é acordado por Seu Guarda, a quem implora para trazer a sua (dele, não "sua") amada de volta. A bizarra súplica é tudo aquilo que todo miliciano metido a Capitão Nascimento sonha ouvir de um malfeitor. Um dos mais belos e tocantes versos da moderna MPB. Acompanhe e se emocione comigo: "Seu guarda, seja meu amigo, me bata, me prenda, faça tudo comigo! Mas não me deixe...ficar sem ela...".
Pois bem. O tempo passou. E eu continuei cultivando a inércia pregada pelo comilão esposo de Carlota Joaquina. Dias atrás, estava eu em Bruxelas, Bélgica. E foi lá, no improvável ex-Jardim Botânico da cidade, que encontrei um companheiro de infortúnio de Cara Carente e Seu Sebastião. Malcolm Middleton. Explico: em 1797, um jardim botânico foi inaugurado na região conhecida por Cidade Baixa. Em 1826 foi desativado, pois um outro acabou sendo aberto fora da cidade. Foi então construída uma redoma de vidro (na foto, lado direito), hoje um centro cultural. Lá rolam exposições, cinema, peças de teatro...shows de rock! É o Le Botanique (http://www.botanique.be/). Foram os vidros do Le Botanique que Lisa Kekaula, vocalista do Bellrays, quase estilhaçou com sua voz super poderosa. Foi em um dos palcos do lugar que descobri que Calvin Harris não é uma espécie de irmão caçula de Justin Timberlake, mas felizmente uma espécie de irmão caçula de James Murphy que teve a luminosa idéia de, ao vivo, melhorar seu som rock-disco adicionando guitarras ao show. Virou LCD Soundsystem misturado com Primal Scream. E conheci o escocês Malcolm Middleton, que um dia esteve na dupla "Arab Strap", hoje seguindo carreira solo. Meio gordinho, meio careca, meio narigudinho. E uma baixa estima....que chega a ser engraçada. Toca violão, acompanhado por Stevie, no violoncelo, e pela fofa Jenny, da banda Strike the Colours, no violino (http://www.myspace.com/strikethecolours). Melodias folk muito bem feitas, músicas lindas (http://www.myspace.com/malcolmmiddleton). Canções com letras...bem, Middleton sofre. Por tudo. Sempre, em todas as músicas. Antes, porque acredita que não vai ganhar a menina. Durante, porque tem a certeza de que vai perdê-la. E depois, porque de fato perde. "Onde você vai? Não está gostando?", interrompe a execução da música e pergunta o inseguro MM a um rapaz que estava saindo da sala onde rolava o show. "Banheiro. Posso?", devolve o cara. "Ah, pode vai". Minutos depois, outro: "Vou comprar cerveja....mas volto, viu!", tranqüilizou o fã. MM é sensível. "..how can you like me/With this hand and these arms/how can this shallow freak be accused of having charm/The way the earthquakes land when I blow my nose/How long can I be myself before you get up and go?", canta o Cara Carente Escocês em "Devastation".
Na ultra-pessimista "Break My Heart", MM já prevê e antecipa a dureza que seria ficar sem ela: "You’re gonna break my heart I know it
But if you don’t
You’re gonna break my run of unhappiness and destroy my career
I’d rather feel full than sing these shit songs
I’ll sell my guitar and never look back
You’re gonna break my heart I know it
And when you do
I’m going to run to the country and plug my ears
I’d rather have you than sing these shit songs
I’ll sell my guitar and get an education and never look back
You’re gonna break my heart I know it
If you don’t break my heart I’ll do it myself
And when I do
I’m going to count all the numbers for all the years
If I don’t have you I’m condemned to sing shit songs
I’ll fuck my guitar and drink myself deaf
It’ll be an education and I’ll never look back
I don’t want to sing these shit songs anymore"

Em 100% das canções do show, MM é loser. Uau! Traduções e versões para o português sem dúvida garantiriam a longevidade da carreira de Bruno e Marrone. O espírito é o mesmo: "I'm so lonely. I gonna get caught by the police for company". Ou será "Speed On The M9" um plágio de "Dormi na Praça"? Malcolm Middleton também prefere ser preso a enfrentar a desilusão. Como o Seu Sebastião...

Ah!! Seu Sebastião! Quase terminei o post esquecendo de contar o fim da história do Homem que Queria ser Preso. Lá vai:

- "Oi. Foi você o estagiário que conversou com aquele senhor outro dia?"
- "Que senhor?"
- "Aquele que..hã...queria ser preso. Eu queria saber se..."
- "Ah tá! A mulher dele apareceu aqui no fórum, pediu desculpas pelo comportamento do marido, disse que ele queria comovê-la. Tudo resolvido! Vão voltar a viver juntos!"

Ufa! Caso encerrado e arquivado sem minha intervenção! Ele não ficou sem ela!

Dom João VI...gênio!!

Wednesday, April 16, 2008

Paraíso



"Seus olhos, donde a chama eternal é partida,
Como se olhassem longe estão no firmamento;
E não os vê jamais, por sobre o pavimento,
Inclinar vagamente a fronte sucumbida.
Atravessam assim a infinda escuridade,
Esta irmã do silêncio imutável, cidade!
Enquanto em torno a nós é um lamento o teu canto."
("As Flores do Mal", "Os Cegos", Charles Baudelaire)

"Not feelin´any pain
But I know that it´s real
Never see the color of the day
In the darkness I kneel."
("Praying Ground", Mark Lanegan)


Álcool. E as drogas eleitas pelo século retrasado: ópio e haxixe. Charles Baudelaire, o maldito poeta francês, esteve vivo no paraíso. Preferiu ir embora. Antes de morrer em Paris, no ano de 1867, relatou suas experiências. Publicada pela primeira vez em 1860, a obra "Les Paradis Artificiels" é um conjunto de ensaios sobre os efeitos dos entorpecentes dos quais fez uso. Os "paraísos artificiais". Prazer com prazo de validade que os homens ansiavam para escapar da mediocridade existencial à qual estavam condenados. Uma fonte mórbida de felicidade que cessava quando o potencial inebriante dos tóxicos chegava ao fim, trazendo depressão e calafrios. Baudelaire quis entender e explicar as motivações mais profundas que conduzem alguém ao falso Nirvana das drogas.


"A heroína me salvou do alcoolismo", explicou ironicamente Mark Lanegan, em uma entrevista de 2004, sua motivação mais profunda para regulares visitas ao Éden. Lanegan, nascido em 1964 em uma pequena cidade de Washington, EUA, filho de uma família desestruturada, passou a adolescência furtando comerciantes locais e entornando latas e garrafas de álcool. Aos vinte anos, foi alertado por um médico de que não chegaria aos trinta se não largasse a bebida. Largou. Com ajuda da heroína. Em 1986, Mark Lanegan e amigos montaram o "Screaming Trees", banda depois associada ao movimento grunge, junto com Pearl Jam, Mudhoney, Soundgarden. E Nirvana. Inicialmente, Lanegan tocaria bateria. Péssimo no manejo das baquetas, assumiu os vocais. Do "Screaming Trees" e de sua própria carreira solo, paralela à banda. A voz de Mark Lanegan - absurdamente rouca, soturna, marcante e única - era perfeita para as composições bem diferentes do rock de garagem do "Screaming Trees": canções com levada blues e folk. Tristes e lindas.

1996, fim do "Screaming Trees". Desentendimentos e brigas: Lanegan reclamava que trabalhava por todos os outros membros. Dependência química. Mark Lanegan sabia que amigos estavam morrendo por escolher o mesmo caminho. Como Kurt Cobain, do Nirvana. Em 1997, acontece a prisão por posse de drogas. O paraíso havia se transformado no inferno, era hora de partir. E ele partiu. Os cigarros salvaram Lanegan da heroína. Hoje seu único - e pesado - vício. Como Baudelaire, Mark Lanegan escreveu seu testemunho a respeito do vício em entorpecentes. Mas escreveu na forma de músicas que cantou, e canta, com as mesmas cordas vocais que a heroína e o fumo ajudaram a arruinar e - espantosamente - a fazer a voz tão bela. Em "Methamphetamine Blues", faixa do disco "Here Comes That Weird Chill", de 2003, Mark Lanegan confessa: "I don't want to leave this heaven so soon". Memórias de um lugar ilusório e artificial, que felizmente ele soube deixar para trás.
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Bruxelas, nove e quinze da noite, 11 de abril de 2008. Eu aos pés de Mark Lanegan. No sentido literal da expressão "aos pés". E figurado também. Primeira fila do show do "Gutter Twins", confortavelmente (belgas, civilizados, não empurram, não encostam). "Gutter Twins" é a dupla Mark Lanegan e Greg Dulli, amigos das antigas. Greg Dulli, ex-líder da finada "Afghan Whigs", atualmente vocalista e guitarrista do "Twilight Singers". É o encontro do rock-soul, de Dulli, com o rock-blues, de Lanegan. De dois brothers que se ligaram de que o paraíso um dia prometido....era a sarjeta.
A menos de dois metros de distância, na minha frente, Mark Lanegan não enxerga. Depois de entrar no palco, vai até o microfone, que segura com uma das mãos. A outra, no suporte. Ergue o queixo, fecha os olhos e canta no escuro. O tempo todo. Parado, quase não movimenta o corpo. A voz, áspera ao extremo, toma conta do Ancienne Belgique e rivaliza com a guitarra de Greg Dulli. Imerso em um paraíso particular, Lanegan canta enquanto permace alheio à realidade. Não sorri, não cumprimenta o público, não acompanha o playlist colado no chão, ao seu lado (mas que eu getilmente arranquei das mãos do roadie, quando o show acabou). Quando um fã invade o palco, passa um dos braços em volta de seus ombros e cochicha no seu ouvido...ele continua com os olhos fechados, mãos no microfone, cantando imóvel. Sozinho no bis (Greg Dulli abandonou o palco e foi levado ao hospital, desidratado e hipotérmico), tinha conquistado Bruxelas, cidade onde, anos e anos atrás, Baudelaire afundou no vício. Mark Lanegan não interage com a platéia, não se movimenta no palco, não quebra (e não toca) instrumentos musicais. Não lança novo trabalho solo desde 2004. Não tem banda fixa, apenas contribui com amigos (atualmente além de Dulli, Isobel Campbell, do "Belle and Sebastian", "Soulsavers"), permanece calado em entrevistas, não mantém site oficial (conta cancelada na web...por falta de pagamento!). Mark Lanegan, hoje limpo, desafia todos os padrões de rebeldia do rock. De olhos fechados, na escuridão. Cool.
Bruxelas, dez e meia da noite, 11 de abril de 2008. Eu, cotovelo apoiado no palco, cabeça sustentada pela palma na mão. Aos pés de Mark Lanegan quando a última canção chega ao fim.
Lamento.
Eu não queria deixar o paraíso tão cedo.

Saturday, March 22, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXIV



"Large Peasant", de Aimé-Jules Dalou, e Mark Lanegan.

P.S. Com esse, eu casava.

Thursday, March 20, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXIII



"San Sebastian", de El Greco, e Tom Smith, vocalista e guitarrista do Editors.

Friday, February 08, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXII



Escultura de Boris Mikhaylovich Kustodiev e Johnny Rotten, vocalista do Sex Pistols.

Sunday, February 03, 2008

Quando a Arte vira Rock, Parte CXXI


"A Young Lady´s Adventure", de Paul Klee, e Bilinda Butcher, vocalista e guitarrista do My Bloody Valentine.

Quando a Arte vira Rock, Parte CXX



Escultura de Waldemar Grzimek e Keith Richards.

Sunday, January 13, 2008

My Last Mistake

Lindo demais:


http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=32395070



Thanks pela dica, sir Rogério :)

Monday, January 07, 2008

Quando a Arte vira Rock, Edição Especial



Capa do disco "Boy", do U2, e Paulo César Martin, o Paulão do "Garagem", aos oito anos! Obrigada pela foto, Paulão!

Tuesday, December 25, 2007

Transtorno Obsessivo-Compulsivo


Impossível ouvir uma vez só:




Em maio, show do Editors em São Paulo!


2008 já está ganho!


Saturday, December 22, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXIX


"Head of Orpheus on the Water or The Mystic", de Odilon Redon, e Peter Hook, baixista do Joy Division.

Saturday, November 24, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXVIII




"San Rossore", de Donatello, e Scott Weiland, vocalista do Stone Temple Pilots e Velvet Revolver.

Sunday, November 18, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXVII




Máscara de Hanako, de Rodin, e Kim Deal, baixista e vocalista do Pixies, guitarrista e vocalista do Breeders.

Thursday, November 15, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXVI



"Douglas Garman", de William Chattaway, e o cantor Alice Cooper.

Wednesday, October 31, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXV



Apollo de Belvedere e Layne Staley, vocalista do Alice in Chains.

Tuesday, October 23, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXIV



"David", de Donatello, e Justin Hawkins, vocalista do Darkness.

Friday, October 12, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXIII




"Against the Wind", de Rimma Pantsekhovskaya, e Tom Verlaine, vocalista e guitarrista do Television.

Saturday, October 06, 2007

On The Road!



Oito da noite. Dirigindo na Marginal Tietê. Um caminhão mega-comprido faz a ultrapassagem do meu lado direito. Na traseira, a frase de pára-choque, em letras imensas, alcançando toda a largura do eixo. Praticamente uma gigante bandeira empoeirada, balançando poucos centímetros acima do asfalto:


RAMONES
ADIOS AMIGOS!


Hehe. É por essas e outras que eu amo essa cidade!!!

Sunday, September 30, 2007

NYC Man



"All the victims have turned to stone, no one is happy, they're all alone /I'd sacrifice my social position tonight/In New York, millionaires, and lonely people with lonely stares/I'm not lookin' for love and I'm lost in this night/In the naked city (in the city) there are ten million stories (naked city)/I'm not lookin' for pity (in the city) in this naked city (naked city)" ("Naked City", Kiss).


"I met a man/He told me straight/"You gotta leave/It's getting late"/Too many cops/Too many guns/All trying to do something/No-one else has done" ("Big Exit", PJ Harvey).


"New York, New York! It´s a wonderful town!" cantavam em êxtase os três marinheiros jovens, uniformizados, penteados e barbeados...em licença de vinte e quatro horas para conhecer a mais vibrante cidade da América. Gene Kelly, Frank Sinatra e Jules Munshin foram os atores que, através de Hollywood, mostraram às telas de cinema do mundo a face doce, alto-astral, dançante e colorida de New York. O filme era "On The Town", de 1949, clássico musical produzido pelos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer. Ou, no título traduzido para o português, "Um Dia em Nova Yorque". Apagada a tela de projeção, quem não saía do cinema sonhando com um dia na cidade maravilhosa?

"New York is a friendly town" brilhava o letreiro luminoso em uma fotografia borrada. Foto irônica, mais uma entre as centenas que Weegee, apelido de Arthur Fellig (1899-1968), tirou durante sua carreira de repórter fotográfico. Weegee foi o fotógrafo que, através de uma câmera rudimentar e muita luz, mostrou às páginas dos tablóides a face amarga, deprimente, sem-lei e preta-e-branca de New York. Não foi trabalho de um dia em Nova Yorque. Foram incontáveis noites, entre as décadas de 30 e 50. Terminada a leitura e fechado o jornal, que leitor não suspirava aliviado por não ter passado uma noite de pesadelos na cidade..."amistosa"?

Por cerca de quinze anos, Weegee não dormiu. O esforçado e incansável rapazinho, judeu de origem polonesa, começou a trabalhar como repórter fotográfico em 1935, com um diferencial: era o único jornalista autorizado a operar um aparelho de rádio de ondas curtas para captar mensagens do quartel general da polícia. Ao volante de seu Chevrolet, Weegee se investia de uma missão: percorrer indefinidamente as ruas novaiorquinas noite a dentro, à procura de trágedias humanas. Para Weegee, New York era um permanente pronto-socorro.

Conectado às informações policiais e dotado de incrível faro para aparecer no lugar exato a tempo de flagrar prisões, incêndios, acidentes de carros, Weegee não raro terminava seu trabalho antes de policiais limparem o cenário dos crimes. Em alguns casos, antes mesmo da polícia chegar. Registrava catástrofes enquanto elas aconteciam. O laboratório de revelação - improvisado no porta-malas do carro - garantia a rápida metamorfose das imagens em fotos. No próprio local fotografado! Resultado: a verdade crua das cenas e pessoas fotografadas provocava choque, temor, fascinação na maioria dos leitores. As fotos reveladas conservavam o impacto do momento de seu nascimento.

Além de simples, o equipamento fotográfico de Weegee era ajustado para provocar contrastes: luz branca pipocava nos rostos surpresos de gangsters algemados, de mulheres que se deparavam com os corpos de seus maridos abatidos nas calçadas, de estrelas do cinema perdendo a compostura na saída de alguma festa regada a álcool. Weegee chamava sua técnica de "luminosidade à la Rembrandt". E esse método guardava mais semelhanças com técnicas de filmagem cinematográfica do que com de fotografias...

E foi então o cinema que compreendeu Weegee. Entendeu, o homenageou e por ele foi influenciado. Até hoje. Weegee foi o fotógrafo que, segundo o New York Times, "criou a noite noir". Inspirou, por conseqüência, o cinema noir. "Naked City", película em preto-e-branco de 1948, reproduziu a estética visual de "Naked City", livro-coletânea das fotografias de Weegee publicado em 1945: a criminalidade americana fotografada na visão de culpados, testemunhas, vítimas; a desigualdade social, a violência, o mundo das ruas onde o menino judeu cresceu, se educou e virou autodidata da fotografia.
Os quadrinhos também absorveram as imagens de Weegee. Visual sombrio, alto-contraste, marginalidade, corrupção policial....Frank Miller transformou em cultura pop o trabalho de Weegee. Nasceu "Sin City", série de comics noir. E os desenhos perturbadores de Miller, inspirados pelas fotos perturbadoras - e reais - de Weegee, levaram à adaptação cinematográfica de "Sin City" (um dos filmes mais bacanas que já vi). Vendo as fotografias de Weegee, não há como não lembrar de "Sin City"....
Repórter fotográfico de vigília, empenhado em rondas noturnas, se esgueirando entre os arranha-céus de Manhattan, flagrando criminosos em ação, trabalhando antes e à frente da polícia. Ah, agora você sabe quem o novaiorquino Stan Lee usou como modelo para criar Peter Benjamin Parker. Sim, Weegee é o Homem-Aranha!
Weegee não registrou apenas o lado ilícito e sensacionalista de New York. Embora polêmico e muitas vezes acusado de oportunista e imoral, o repórter denunciou o racismo através de fotografias que captaram humilhações suportadas pela população negra, o abandono de crianças e mendigos na periferia, de adultos em manicômios. Fotografou o período da Depressão, as paradas comemorativas da euforia do pós-guerra, gente solitária em Manhattan, namorados. A faceta muitas vezes feia, mas às vezes poética de uma cidade que, anos mais tarde, a banda Velvet Underground usou como tema para suas canções. Lou Reed escreveu e cantou as fotografias de Weegee. E até os mascarados - e novaiorquinos - do Kiss, banda de hard-rock, renderam-se a Weegee. "Naked City" é também música: "In the naked city, there are ten million stories".
Jornalismo policial, História Americana, cinema noir, comics, Sin City, Homem-Aranha, rock, cultura pop.
Senhoras e senhores, Weegee:

Sunday, September 23, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXII



O pintor Lecomte du Noüy e Freddie Mercury, vocalista do Queen.

Wednesday, September 19, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CXI



Estátua de Fitz Hugh Lane e Sergio Pizzorno, vocalista e guitarrista do Kasabian.

Monday, September 17, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CX



"Bust of Antoine-Louis Barye" e Brian Wilson, cantor e baixista dos Beach Boys.

Tuesday, September 11, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CIX



"Isaac Newton Phelps", de Chauncey Bradley Ives, e o cantor e guitarrista Neil Young.

Sunday, September 02, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CVIII



"Edward Steichen", Self-Portrait, e Peter Murphy, vocalista do Bauhaus.

Saturday, September 01, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CVII



"La Negresse", de Jean Baptiste Carpeaux, e Lisa Kekaula, vocalista do Bellrays.

Thursday, August 30, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CVI



"Femme-Poisson", de Rodin, e a cantora Tina Turner.

Wednesday, August 29, 2007

Here We Are Now, Entertain Us

Vestido preto, soltinho. Longo. Óculos escuros, apesar do ponteiro do relógio quase se aproximar das nove horas (da noite). Cigarro equilibrado entre os dedos da mão direita. Vinho branco na mão esquerda. Em taça. De vidro. Olhando fixamente para...Jesus.
Ela estava linda e perfeitamente trajada para se sentar na primeira fila de um desfile da semana de moda de Paris. Mas estava de pé, sobre um gramado enlameado, quarta fileira formada pelas pessoas que assistiam ao show da banda Jesus & Mary Chain.
Eu não me espantei. Afinal, era o segundo dia do Rock en Seine, festival parisiense que rolou no último final de semana nos jardins do Domaine National de Saint Cloud, arredores da cidade. No dia anterior, já tinha observado e aprendido: não existem "indies" franceses. Há somente...franceses. Caminhando pela enorme área ocupada pelos três palcos armados para as apresentações, não vi garotos com cabelos cortados no estilo Strokes. Não esbarrei em gente usando óculos de aro preto grosso. Muito menos em meninas-clones da Karen O. Gente de terno? Sim, isso havia. Mas nada a ver com os terninhos usados pelos músicos do Interpol, por exemplo. Ternos vestidos por caras que, no final da sexta-feira, tinham saído do trabalho e chegado a tempo para ver o Arcade Fire. Eu estava há doze dias em Paris e até então nunca São Paulo me pareceu tão distante.
Ao contrário da molecada paulistana que curte rock alternativo, os jovens franceses não querem ser ingleses ou americanos. E música serve para cumprir a única função...de ser ouvida. Rock gringo não dita regras de moda e estilo (ainda mais em um país que se orgulha de exportar tendências de moda e estilo). Veneração de rock stars gringos, gritos de entusiasmo durante os shows? Impensável. Quem se apresentou no festival esperando consagração em solo francês....pegou a linha de metrô errada. O aeroporto Charles De Gaulle fica na direção oposta.
"Bom dia! Está na hora de acordar, França!" Foi mais ou menos assim que J Mascis, da banda americana Dinosaur Jr, anos 90, cutucou a platéia que, imóvel, assistia a uma apresentação que lembrava os velhos tempos do grunge. Mas sem camisas de flanela, sem tumultos, sem mosh.
Howlin' Pelle Alqvist, vocalista do sueco The Hives, também tentou. Pulou do palco, subiu na grade, abriu os braços. Totalmente disposto a ser agarrado pela galera e levado pela multidão. Bom, o único trabalho que o segurança teve foi o de segurar os pés do rapaz para que não caísse no vão entre grade e palco. Não precisou livrar o terninho preto do vocalista de dezenas de mãos, não gastou energia dando safanões em fãs grudados no sueco como ímãs. Porque não havia nenhum.
Quando o show do Jarvis Cocker, ex-Pulp, começou...a partida de baralho que rolava sobre uma toalha xadrez, quatro jogadores compenetrados,....continuou! Perto do palco! Quem rodeava o quarteto não se incomodou, não reclamou. Ao meu lado, um ser traçava macarrão ao molho branco espalhado sobre um prato decorado. Entre duas e três garfadas, se lembrava de espiar o show.
Foi fácil, fácil chegar próximo aos palcos em quase todas as apresentações. Não há aglomerações no Rock en Seine. E por que haveria? Para um francês, não existe sentido algum em sofrer na fila do gargarejo; é muito mais coerente e agradável deitar lá do fundo, na grama, cabeça no colo da namorada e garrafa de champagne do lado. Enxergar a banda? Telão, ué!
O Rock en Seine lotou, os três dias. E o que me impressionou - no bom sentido - é que a maioria das pessoas que estavam lá não queriam ver e ser vistas. Queriam simplesmente sentar nos bancos de madeira e rir com os amigos. Queriam passar um programa diferente em família (e havia muitas, pais e filhos adolescentes). Queriam comer (comidas aos montes, em barraquinhas dispostas como em festa junina. Mexicana, árabe, italiana, sanduíches, sorvetes, algodão-doce) e beber (cerveja, vinho, champagne. Vendiam até chá e café!). E sim, queriam ouvir música bacana. E, principalmente, se empolgar unicamente com bandas que realmente são empolgantes.
Franceses não pagam pau para qualquer grupo glorificado pela NME. Não fingiram que adoraram o Jesus & Mary Chain só porque a banda marcou os anos 80 (e, a julgar pela metade do show que vi, devia ter permanecido lá). Não foram cativados por Jarvis Cocker falando francês. É um público extremamente justo: vibração, aplausos em massa, pedidos de bis apenas para o Arcade Fire que, de longe, fez o melhor show do festival (com direito até a um sermão evangélico - em bom português do Brasil! - que abriu o show! Antes de explodir a primeira música, uma menina berrava no telão: "Você é infiel, traiu seu marido! Só Jesus salva!").
Franceses não vestem camisetas de bandas, não levantam placas e faixas durante os shows. A admiração e fidelidade por um artista são discretas. Como a da moça francesa, minha idade, que me abordou na saída do festival. Era o último dia, começava o show de encerramento. Só eu indo embora. Ela veio correndo, perguntou em francês. Quando eu disse que não falava a língua, a conversa rolou em inglês. "Tá indo embora?". "Estou". "Não gosta da Björk?". "Acho meio chata". "Posso ficar com a sua pulseira?". "Claro!". A pulseira era o ingresso. A bilheteira já estava fechada. Ela pegou meu braço, tirou uma tesourinha da bolsa, cortou a pulseira de plástico. "Agora me ajuda a colocar?". "Ajudo....Ih, meu pulso é mais fino do que o seu. No seu, as pontas mal se juntam". "Agora vão juntar....com isso!". "Mas isso não é....?""É". "Mas você vai...."."Não tem problema, não! Me ajuda a colocar...". "Você quem sabe. Pronto"! A gente se despediu, rindo, as duas com aquele jeito de quem lamenta ter conhecido uma pessoa aparentemente legal, mas que nunca mais vai ver....e ela entrou correndo pra ver a Björk, cantora que, ao meu ver, não merece uma fã que chega ao ponto de colar o ingresso no braço com SuperBonder...(sobrou um pouco para meu dedo...sangrou pra tirar a cola seca, hehe).
Franceses que amam rock têm plena consciência de que a atração principal é o artista que se apresenta, não a platéia. Franceses não transformam shows em cultos de adoração, não se importam mais com a pessoa que está no palco do que com o som que ela cria. Franceses comparecem, lotam festivais. Mas não querem divertir ninguém, por mais celebrado que seja pela imprensa musical. Ao contrário. Franceses são adeptos do aviso de Kurt Cobain em "Smells Like Teen Spirit": "Here we are now, entertain us". Viemos aos shows, pagamos. Tratem de nos distrair com competência, pois não estamos aqui para alisar seu ego.

Pensando bem, talvez não por acaso, mas por ironia e alerta dirigido a qualquer rock star pretensioso, o símbolo do Rock en Seine seja....um bobo da corte.

Tuesday, August 28, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CV



"Alice", de Balthus, e a cantora Fiona Apple.

Quando a Arte vira Rock, Parte CIV



"Pierre Bonnard", Self-Portrait, e o cantor Moby.

Quando a Arte vira Rock, Parte CIII






"Jeune homme", de Jules Dalou, e Alex Kapranos, vocalista e guitarrista do Franz Ferdinand.


Monday, August 13, 2007

Hey, Ho! Let´s Go!

Férias. Uns dias em Paris. Para descobrir rock stars nos quadros do Louvre, ver o Rock en Seine (Anna, vambora!)....e colar nas lojas de maquiagem!!!

Volto no dia 27

Beijos

Sunday, August 12, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CII



Pintura de Francisco de Goya e Alex Turner, vocalista e guitarrista do Arctic Monkeys.

Thursday, August 09, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte CI



"Lilly Martin Spencer", Self-Portrait, e a cantora PJ Harvey.

Monday, August 06, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte C



"Rembrandt", Self-Portrait, e Kris Novoselic, baixista do Nirvana.

Friday, August 03, 2007

Recado para a Cris

Cris! Seguinte: o lazarento do Speedy perdeu o acesso para os blogs blogspot na cidade de São Paulo. Não tem previsão para voltar ao normal. Dá pra postar, mas não dá pra entrar no blog direto. Para acessar o meu, o seu, o da Annix, do Bruno, só através de gambiarras. E não dá para comentar. Só para você saber: continuo lendo tudo o que você escreve, querida. Sou sua fã número 1. Mande seu e-mail pra mim (analutb75@yahoo.com.br), assim eu posso escrever para você até acabar o apagão dos blogs (afe!).

Só lendo para entender.
E pasmem. Ela tem só quinze anos!!!

Quando a Arte vira Rock, Parte XCIX




"Young Omahaw, War Eagle, Little Missouri, and Pawnees" (detalhe), 1821, de Charles Bird King, e Wattie Buchan, vocalista do Exploited.

Sunday, July 29, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte XCVIII



"Jean-Joseph-Marie Carriès", de John Singer Sargent, e JD Samson, do Le Tigre.

Thursday, July 26, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte XCVII



"Portrait of a Goldsmith", de Jan van Eyck, e Michael Stipe, vocalista do R.E.M.

Friday, July 20, 2007

Concertos para a Juventude




Novembro de 2005, Barcelona Teatro Musical. Todos acomodados em suas poltronas, toca a campainha. O quarteto de cordas entra no palco. Toca durante cerca de uma hora. Termina a apresentação e se retira. De novo a campainha. Surgem os músicos principais, acompanhados do mesmo quarteto de cordas. O arco do violoncelo desliza no instrumento e a música começa. Durante quase duas horas, platéia quieta e paralisada. A noite é encerrada ao som frenético da Oitava. O público se levanta, palmas de profundo entusiasmo por vários minutos. Os músicos dão as mãos e inclinam as cabeças em agradecimento. Fim do espetáculo.

De Rock.

O local não era exatamente clássico. O Barcelona Teatro Musical é uma construção de arquitetura moderna, acústica perfeita. O público não era exatamente clássico: gente jovem, estudantes e turistas mochileiros de tênis nos pés. A banda de abertura não era exatamente clássica: Amiina, quatro bonecas islandesas que acrescentaram aos quatro instrumentos de cordas (primeiro violino, segundo violino, uma viola e um violoncelo) um piano digital, sintetizador e computador que produzem melodias eletrônicas. Os músicos principais não eram exatamente clássicos: Sigur Rós é banda de rock nascida na gélida e escura Islândia. O concerto não foi exatamente clássico: imagens eram reproduzidas em telão, luzes multicoloridas irradiavam do palco; o arco do violoncelo deslizava em uma....guitarra. E o gran finale não foi exatamente clássico: a apoteótica música não foi uma Oitava Sinfonia composta por algum célebre compositor, e sim a Oitava faixa do álbum sem-nome "( )", do Sigur Rós.
No século XXI, o Sigur Rós não respeita certos padrões do rock. Suas canções, por exemplo, não têm refrões. Quando há voz, ela é aguda, em falsete...um lamento do guitarrista Jónsi Birgisson, que canta em uma língua....que não existe. O Sigur Rós ousa sem medo. Da mesma forma que, no século XIX, um alemão também ousou. Ludwig van Beethoven não respeitou certos padrões da música clássica. Introduziu um coral em uma de suas composições e assim criou a primeira sinfonia da História a utilizar voz humana. A famosa Nona Sinfonia.
O austríaco Wolgang Amadeus Mozart não foi tão genial quanto Beethoven. Mas sabia compor com emoção inigualável. Impressionado, o também compositor Franz Schubert chegou a dizer: "na Sinfonia em Sol Menor de Mozart, pode-se ouvir o canto dos anjos". As melodias do Sigur Rós também são comoventes. O último disco da banda, o elogiado "Takk", mistura a guitarra distorcida pelo arco do violoncelo ao som clássico de um quarteto de cordas impulsionado pela tecnologia. A voz invernal e solitária de Jónsi dá força às canções. Não é propriamente a voz de um anjo, mas certamente possui um timbre que não parece humano.
A apresentação do Sigur Rós, aquela noite em Barcelona, não foi apenas o melhor show da minha vida. Foi um dos melhores e mais sublimes momentos da minha vida. E acredito que também tenha marcado a existência das várias pessoas que lotaram o teatro, um público completamente heterogêneo: basicamente jovens, mas pais de família também. Número de estrangeiros sensivelmente maior do que de catalães: antes do show, conversas em inglês, alemão, francês e idiomas por mim desconhecidos se confundiam na platéia; todos esperando para ouvir música enriquecida por palavras pronunciadas em uma língua que não existe...
O Sigur Rós já tocou aqui em São Paulo, em 2002 (se não me engano). O show passou batido. Culpa do local (uma tenda armada. Acústica sofrível, clima desprovido de charme). Culpa dos presentes (que batiam papo em diversas rodinhas, desinteressados e na espera pelo Belle & Sebastian, atração da noite). Culpa da banda (o show foi baseado nas faixas dos seus primeiros CDs: sonolentas). Mas os islandeses mudaram. As guitarras, a colaboração das instrumentistas do Amiina, a influência (positiva) de uma grande gravadora reconstruíram o som do Sigur Rós. Torça para que eles voltem a se apresentar no Brasil (em um esquema decente). Se você tiver condições financeiras, vale a pena abrir o Atlas, conferir o roteiro da próxima turnê da banda (que por ora não está excursionando, preparando o novo CD) e ir atrás! Vai compensar cada dólar, libra ou euro gasto, eu prometo.
Sigur Rós, ao vivo, não é um show de rock, não é um concerto moderno. É muito mais.
É uma experiência assustadora.

Monday, July 16, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte XCVI



"Music", de Eugene Delaplanche, e Sarah Neufeld, violinista do Arcade Fire.

Saturday, July 14, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte XCV



Escultura de Carl Eldh e o cantor Jeff Buckley.

Wednesday, July 11, 2007

Van Gogh´s Walk On The Wild Side




"But remember that the city is a funny place/Something like a circus or a sewer/And just remember different people people have peculiar tastes/And the - Glory of love, the glory of love - the glory of love, might see you through" ("Coney Island Baby", Lou Reed).

Existe um lugar no qual a cor é uma só. A cor da sujeira do cobertor que enrola o bêbado sonolento na calçada. A cor da parede esburacada onde, na rua, a menina esconde o dinheiro que deve ao cafetão. A cor do chão em que se encolhe o moleque, torcendo para que ao menos naquela noite o padrasto chegue da rua e espanque apenas a sua mãe. A cor da mancha estampada no rosto do travesti que atrasou a comissão do policial. Quer conhecer? Então que tal dar uma volta pela zona barra-pesada da cidade? Quem convida é Lou Reed, seu anfitrião e guia. Ex-vocalista e guitarrista da banda "Velvet Underground", hoje em carreira solo, que desde os anos 60 escancara o lado monocromático de Nova Yorque. Trovador urbano que abre portas e janelas de espeluncas, cortiços e hotéis baratos para revelar e contar, através de canções, os dramas, a desesperança e inanição de um mundo pintado em preto-e-branco. Mundo onde, em outra época, em outro país, o jovem Van Gogh se atreveu a passear.

Vincent Willen Van Gogh nasceu em 1853, na Holanda. Filho de família modesta, foi educado e se tornou missionário e professor. Trabalhou na Inglaterra e na Bélgica. Gostava de desenhar. Em 1882, estabeleceu-se em Haya, no seu país natal. E foi em Haya que Vincent saiu às ruas na busca de inspiração e modelos para seus trabalhos. Van Gogh escolheu os marginalizados para retratar. E escolheu o material: somente papel, giz escuro e carvão poderiam traduzir em imagens a miséria e o futuro ausente. Em um asilo para indigentes, encontrou o velhinho Adrianus. Adrianus era um dos "orphan men", apelido dado aos ex-combatentes no conflito que separou e tornou independentes Holanda e Bélgica. Um dos homens que o Estado usou e abandonou quando sobreveio a paz. A figura maltrapilha de Adrianus esteve presente em diversos desenhos simples e tristes de Van Gogh, assim como um dia Lou Reed também se lembrou dos mutilados veteranos de outra guerra, a do Vietnã, na linda canção "Xmas in February".
Adrianus foi o começo. Durante toda a sua vida, Vincent Van Gogh elegeu oprimidos como personagens principais de suas obras. Desabrigados, prostitutas, mendigos. Desabrigados, prostitutas e mendigos que, ao lado de traficantes de drogas, travestis, ex-presidiários ou desempregados, Lou Reed, no século seguinte, colocou sob os holofotes de músicas como "Magic and Loss", "Heroine", "New Sensantions", "Walk On The Wild Side", "I'm Waiting For The Man".
No mesmo ano em que rabiscou no papel os traços duros e sofridos de Adrianus, Van Gogh conheceu Clasina Maria Hoornik, a "Sien". Três anos mais velha, sozinha, dois filhos mortos, uma filha pequena. Grávida do homem que a largou. Vagando pela cidade durante o inverno, faminta e prostituída. Condoído, Van Gogh acolheu a pequena família em sua casa, para dividir com "Sien" a sua pobreza. E para torná-la sua modelo, em troca de pão e um teto, muito embora reconhecesse toda a falta de beleza da moça. Os muitos desenhos de Sien são tão rígidos e duros quanto sua feição precocemente envelhecida e judiada por marcas de varíola. Um dos mais tocantes mostra Sien sentada diante de um forno, fumando. Uma mulher sem brilho. Para Vincent, a vida com Sien era boa. Ele tinha alguém. Apaixonou-se. Mas a ilusão durou apenas um ano e meio. Van Gogh, artista sem dinheiro e ainda longe do reconhecimento (que só chegou depois de sua morte), não conseguia prover o lar. Sien voltou para as ruas. Era o fim. O pintor deixou a cidade. Após um casamento falido, Sien afogou-se. Epílogo de um amor fracassado, protagonizado por gente idem. Como em "Baby Face", na voz e poesia de Lou Reed. Ou na original "Romeo and Juliette": gangues rivais de hispânicos e italianos empatando um romance.
Poucos sabem, mas Vincent Van Gogh produziu mais desenhos do que telas cheias de cor (http://www.vggallery.com/index.html). A explosão de cores marcou a fase do pintor vivida em Paris, anos depois de Adrianus e Sien. Anos depois de ter desistido da escuridão para procurar a claridade e pintar sua tela mais célebre, e uma das mais famosas da História da Arte: "Doze Girassóis Amarelos em uma Jarra". Anos depois de ter se aventurado por becos proibidos e visto, como Lou Reed viu, flores sem cor brotando em latas de lixo, lutando para sobreviver em um lado que nem todos conhecem. O lado sombrio e selvagem da vida.

Sunday, July 08, 2007

Quando a Arte vira Rock, Parte XCIV



"Portrait of Holy Roman emperor Francis II", de Friedrich von Amerling, e Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones.

Wednesday, July 04, 2007

A Voz do Cisne







Bailarinas não têm voz. Não precisam dela para dançar. Cantoras não são dançarinas. Porque Música é Arte incorpórea, puro som.
Mas se bailarinas não dançassem emudecidas, o ballet teria a voz de Hope Sandoval. E se Hope Sandoval, a delicada ex-vocalista da banda de dream rock Mazzy Star, arriscasse leves movimentos sobre o palco...seria uma bailarina.
Hope seria então Ninette. Ninette de Valois. A adolescente da foto antiga que nasceu em 1898, na Irlanda, sob o nome Edris Stannus. Começou a dançar aos dez anos de idade. As aulas eram extremamente dolorosas. O frágil corpinho de Edris tentava superar a paralisia muscular causada por poliomielite. A determinação da menina venceu a limitação física. Ela se tornou conhecida já na Inglaterra por seus movimentos graciosos. Adotou então o nome artístico de Ninette de Valois, aproveitando sua ascendência francesa. E aposentou-se jovem, aos 28 anos, com um projeto ambicioso: lecionar, profissionalizar a dança na Grã-Bretanha e fortalecer a imagem do ballet inglês na Europa e no mundo.
Foi assim que Ninette de Valois, tratada por "Madame" por alunos e bailarinos, fundou o British Royal Ballet. Hoje, uma das companhias de dança mais importantes do planeta. Esperta, contratou bailarinos russos de renome para trabalhar, dançar e ensinar sua técnica no Royal Ballet (na década de 60, Rudolph Nureyev foi um deles). Ninette coreografou e produziu os grandes e mais famosos espetáculos de dança. A